
A estratégia nutricional de Kilian Jornet no ultra trail: azeite de oliva, óleo de coco e flexibilidade metabólica
Neste artigo, a nutricionista Virginia Pérez Mesonero explora como Kilian Jornet utiliza sua flexibilidade metabólica para consumir azeite de oliva e óleo de coco durante a Western States 100.
Durante sua preparação para a Western States 100, Jornet revelou que sua estratégia nutricional incluía o consumo de gorduras — especificamente azeite de oliva e óleo de coco — nos pontos de apoio, aproveitando sua alta flexibilidade metabólica. Isso reforça a ideia de que, em provas longas de baixa intensidade, as gorduras podem ser uma fonte energética eficiente. No entanto, é importante frisar: nem todos são Kilian. Essa abordagem não serve para qualquer um.
A alimentação de Kilian Jornet: versátil e adaptada
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Início da suplementação: Começa após a primeira hora e se repete a cada 30 minutos, com ajustes conforme o clima, a prova e os pontos de apoio. Consome alimentos sólidos como sanduíches, massas e purê de batata.
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UTMB 2022: Utilizou carboidratos líquidos e em gel, proteínas e cafeína — cerca de 100 a 120g de carboidratos por hora.
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Western States 100 (clima quente): Consumiu entre 0,7 e 1 litro de água por hora e pastilhas de sal a cada 30 a 60 minutos.
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Estilo europeu vs americano: Na Europa, costuma parar para comer nos pontos de apoio; nos EUA, utiliza garrafas personalizadas e se abastece correndo.
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Treinos em jejum: Faz treinos longos de 5 a 6 horas sem água nem comida, para treinar o corpo a usar gordura como combustível.
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100–120g de carboidrato por hora: Jornet já era conhecido por essa alta ingestão de carboidratos, provando que mesmo usando gordura, os carboidratos continuam sendo cruciais para o desempenho.
Base científica do azeite e dos MCTs
As gorduras que Jornet utilizou antes da WS100 foram:
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Azeite de oliva (MUFA): Rico em gorduras monoinsaturadas, é digerido de forma estável e tem benefícios cardiovasculares. Em exercícios aeróbicos, pode melhorar a resistência e reduzir o esforço percebido.
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Óleo de coco (MCT): Fonte de triglicerídeos de cadeia média, absorvidos rapidamente e convertidos em energia com mais facilidade. No entanto, pode causar desconforto intestinal se consumido em excesso ou sem adaptação prévia.
Flexibilidade metabólica e treino
Jornet costuma treinar sem comida para ensinar o corpo a usar gordura como fonte principal de energia. Isso traz:
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Mais eficiência no uso de gordura como combustível.
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Capacidade de alternar entre glicose e gordura conforme a intensidade (flexibilidade metabólica).
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Menor dependência de carboidrato durante a corrida e menos problemas digestivos.
Mas atenção: esse tipo de treinamento exige planejamento e orientação profissional.
Riscos digestivos
As gorduras são digeridas mais lentamente que os carboidratos. Se consumidas sem adaptação, podem causar náuseas, peso no estômago ou até diarreia. Os MCTs, em especial, são bem variáveis na tolerância — recomenda-se um limite de 30g por dia.
Uma combinação moderada de MUFA + MCT + carboidrato pode ser viável, desde que treinada com antecedência.
Dicas práticas
Com base na estratégia de Kilian:
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Treine sem comida em treinos longos para melhorar o uso de gordura (mais eficaz em homens).
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Inclua pequenas doses de gordura (azeite ou MCT líquido) nos treinos.
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Sempre combine com carboidratos para manter o desempenho.
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Nunca teste nada novo em prova.
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Respeite os sinais do seu corpo.
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Dê tempo para a digestão — use avituallamentos frequentes.
Conclusão
A estratégia de Jornet mostra que é possível usar gorduras como fonte energética eficiente em provas longas — mas é uma abordagem altamente personalizada:
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É fruto de anos de treino e adaptação.
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O azeite pode ser uma opção energética saudável, mas não funciona para todos.
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Os MCTs têm potencial, mas exigem cuidado com a dosagem.
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A estratégia traz autonomia, estabilidade glicêmica e economia de glicogênio, mas precisa de orientação profissional e adaptação gradual.
