
Tudo sob controle, inclusive o incontrolável – Mountain Do Costão do Santinho 2026
Cobertura da 18ª edição do Mountain Do Costão do Santinho, em Florianópolis, vencida pelo espanhol Juan María Jiménez nos 42 km
Passei o último fim de semana em Florianópolis acompanhando a 18ª edição do Mountain Do Costão do Santinho. A prova teve percursos de 42, 21, 9 e 5 km pelo norte da Ilha, foi vencida na distância principal pelo espanhol Juan María Jiménez, top 10 do UTMB Mont Blanc, e abriu as celebrações dos 24 anos da marca Mountain Do. O evento é um sucesso há muitos anos e pude comprovar presencialmente o porquê disso.

A Sports Do foi a primeira organizadora de corridas de trail do Brasil, e isso aparece na forma como a equipe lida com o imprevisto. Durante o evento, uma poça d’água surgiu em um ponto do percurso onde molharia o pé do atleta cedo demais. Em outro trecho, de última hora, a passagem precisou ser cancelada. Nenhum dos dois problemas chegou ao corredor. Foram resolvidos durante a prova, sem que ninguém percebesse. Por maior que fosse o imprevisto, a solução era imediata e definitiva. A organização tem tudo sob controle, inclusive o incontrolável.
A estrutura do evento é de altíssima qualidade. A base fica em um resort gigantesco, e o evento dispõe de todo o complexo, o que oferece ao atleta um conforto que dificilmente, quase nunca, se vê em provas de trail. Diria que é o verdadeiro evento gourmet do Brasil.
O kit é o mais completo e recheado que já vi, algo de cair o queixo de verdade: mochila resistente à água, boné, camiseta dry fit, bandana, toalha na chegada e medalhão para os concluintes, com assinatura da Ventus Lab e direção criativa de Vinícius Fonseca.
A programação do fim de semana foi além da corrida. A Expo Mountain Do abriu na sexta-feira dentro do resort, reunindo marcas, expositores e a comunidade outdoor. As palestras trouxeram nomes que valem a pena sentar e ouvir: Émerson Iser Bem, campeão da São Silvestre de 1997, e Carlos Dias, primeiro sul-americano a cruzar os quatro desertos extremos do planeta. O show ficou por conta da banda catarinense Dazaranha.
Os percursos são maravilhosos e Floripa não decepciona. São cenários que enchem os olhos e dão prazer em correr. Em determinados trechos você esquece a dor e o sofrimento, desfruta da sua saúde e da sua condição física e fica literalmente feliz.

A prova
Nos 42 km, Juan María Jiménez fez o que todos esperavam dele e venceu com 3h38min20. O brasileiro Jeferson Dias cruzou a linha 1min32 depois, com 3h39min52, e Celso Pereira Carmen completou o pódio em 4h01min27. Em 42 km de trilha técnica, essa diferença entre os dois primeiros é pequena e diz muito sobre o nível do pelotão nacional.
No feminino, Tais Damasio venceu com 4h37min22 e abriu quase 48 minutos para Nina Ribeiro, segunda colocada com 5h24min50. Fátima Castilhos ficou em terceiro, com 5h46min30.
Fora do percurso, Juan se mostrou uma pessoa simples, educada, acessível e disposta. Conversou com quem chegou perto e dividiu com os atletas a metodologia que aplica hoje na equipe Green Sports, que dirige na Espanha. A frase que ele repete é curta: treinar mais não significa treinar melhor. Para ele, volume não substitui qualidade, recuperação e atenção às demandas fisiológicas de cada prova.
Trazer um atleta desse calibre foi tiro certo da Mountain Do. Além de tudo o que já entrega, a organização proporcionou que atletas amadores conhecessem de perto alguém que já esteve entre os dez melhores de Chamonix.
A Sports Do nasceu em 2002, quando Kiko Santos organizou os 73 km em torno da Lagoa da Conceição, a primeira corrida em trilha realizada no Brasil. De lá para cá o circuito cresceu, passou a incluir etapas fora do país e chega em 2026 comemorando 25 anos de marca. A etapa do Costão do Santinho, agora na 18ª edição, abriu essas celebrações.
Juan María Jiménez é natural da província de Valência. Correu os 63 km do Penyagolosa Trails em 2009 e, em 2011, estabeleceu o objetivo de entrar no top 10 do UTMB. Levou cinco anos para conseguir. Em 2016 chegou em décimo, com 23h27min18 nos 170 km de Chamonix.
Não estou dizendo que a Mountain Do é a melhor e nem quero entrar nesse mérito. Mas que ela é uma grande organização esportiva em nível mundial, não há como negar. Me digam qual outra organização brasileira do setor atua em 12 países. Se houver, quero saber, porque não me vem à cabeça.

Resultados — 18ª Mountain Do Costão do Santinho
42 km
Masculino
- Juan María Jiménez — 3h38min20
- Jeferson Dias — 3h39min52
- Celso Pereira Carmen — 4h01min27
Feminino
- Tais Damasio — 4h37min22
- Nina Ribeiro — 5h24min50
- Fátima Castilhos — 5h46min30
21 km
Masculino
- Lucas Martins da Silva — 1h47min18
- Ítalo Oliveira — 1h51min29
- Thales Cavalcanti — 1h53min56
Feminino
- Joanna Borges — 2h16min26
- Gabriela Maliska — 2h19min02
- Josi Borges — 2h23min46
9 km
Masculino
- Leonardo de Paula — 31min37
- Matheus da Silva — 34min56
- André Coelho dos Santos — 35min01
- Marcelo Rech — 35min02
- José Adelino Correia — 37min22
Feminino
- Luísa Vargas — 39min58
- Ana Carolina Braga — 40min46
- Lillian McNair — 42min13
- Andreia de Lima — 43min13
- Juliana Cunha — 43min25
5 km
Masculino
- Guilherme Rings — 22min32
- Renan Sartori Jung — 23min03
- Josias Fernandes de Souza — 23min52
- Vinicius Policena — 25min12
- Oscar Lima de Araujo — 26min20
Feminino
- Milena Silveira — 28min59
- Silmara Fogaça — 29min08
- Sura Carolina da Silva — 29min34
- Gracianne de Melo — 31min48
- Angélica Jensen — 34min05
Conclusão
Saí de Florianópolis muito satisfeito com a experiência que a Mountain Do entrega aos seus clientes. É trail run de altíssimo nível e mostra o que mais de 20 anos de experiência são capazes de produzir.
Junto com o Juan foi na bagagem um pouco do Brasil que a Europa não sabe que existe: um país esportivo que vai muito além do futebol, com organizações de trail de altíssimo nível, trilhas maravilhosas e capacidade de ser um dos maiores destinos de trail running do mundo.
Além de pioneira, a Mountain Do é hoje a maior organizadora de eventos de trail do Brasil, e não seria loucura dizer que da América Latina também. Pelo que vi no Costão do Santinho e pelo que conheço da equipe deles, isso ainda está longe de ser todo o potencial. A ver os próximos anos.
