
Ladakh Trail to Heaven deixa a fase pioneira e entra para valer no Mundial da One Hundred
Após uma estreia restrita a convidados, prova retorna aos Himalaias com três distâncias, premiação, pontos para o One Hundred Trail World Championship e dois brasileiros inscritos nas 100 milhas
Em 2025, a Ladakh Trail to Heaven foi uma expedição competitiva. Um grupo reduzido de atletas foi convidado para atravessar, pela primeira vez, um percurso de 100 milhas no deserto de altitude dos Himalaias indianos. A edição foi classificada pela One Hundred como “Pioneer Edition” ou “edição zero”: um teste real de percurso, operação, segurança e adaptação humana a um ambiente no qual boa parte da corrida acontece acima dos 3.500 metros.
Agora é para valer.
Entre 6 e 8 de agosto, a Ladakh Trail to Heaven realizará sua segunda edição — a primeira considerada oficialmente aberta ao público internacional. Além das tradicionais 100 milhas, o programa passa a oferecer provas de 100 quilômetros e 42 quilômetros, com premiação em dinheiro, pontuação para o One Hundred Trail World Championship e participação dentro da Seven Wonders Series, o principal nível competitivo do circuito. (One Hundred)
A transição entre as duas edições representa mais do que a ampliação do número de atletas. A experiência de 2025 permitiu à organização conhecer, em condições reais, os limites logísticos e esportivos de uma ultramaratona disputada em uma das regiões habitadas mais altas do planeta. Em 2026, Ladakh deixa de ser somente um projeto experimental para assumir uma posição estratégica no calendário internacional da One Hundred.
Uma das provas centrais do World Championship
A Ladakh Trail to Heaven integra a Seven Wonders Series, definida pela One Hundred como a categoria principal — ou flagship tier — de seu Campeonato Mundial. São eventos escolhidos para representar grandes desafios de endurance em territórios de características extremas e distintas.
Dentro dessa estrutura, os atletas podem somar pontos e buscar classificação para a Grande Final do One Hundred Trail World Championship, que será realizada entre 12 e 16 de novembro, durante a Mons Ultra Trail, em Nova Trento, Santa Catarina. O calendário mundial conecta provas de diferentes distâncias e continentes, enquanto o Trail World Tour amplia o ecossistema para eventos e corredores que não estão concentrados exclusivamente nas ultradistâncias. (One Hundred Trail)
A escolha de Ladakh como uma das etapas mais importantes não acontece apenas pela beleza do Himalaia. No desenho esportivo da One Hundred, a prova representa o grande desafio de altitude do campeonato.
Essa função também coloca o evento como uma das três provas que compõem o Gold Slam, projeto destinado aos atletas que concluírem, em até duas temporadas, três experiências completamente diferentes: a Costa Rica 200, representando calor e selva; a Ladakh Trail to Heaven, como desafio de altitude; e a Cro Trail, disputada em terreno alpino. Quem completa as três recebe o título de Gold Slam Finisher e passa a integrar o Hall of Legends da One Hundred. (One Hundred Trail)
Assim, Ladakh não é uma etapa comum dentro do circuito. É uma das provas que ajudam a definir a identidade internacional do campeonato.
Três distâncias em um ambiente extremo
A principal disputa permanece nas 100 milhas. O percurso oficial informado pela organização possui 158 quilômetros, 6.242 metros de ganho de elevação e limite de 42 horas. A prova de 100 quilômetros terá, na prática, 109 quilômetros, 3.770 metros de desnível positivo e tempo máximo de 30 horas. A maratona apresenta 42,7 quilômetros, 1.750 metros de subida acumulada e limite de 14 horas. (One Hundred)
As distâncias, entretanto, contam apenas uma parte da história.
A competição atravessa o vale do rio Markha e antigos caminhos utilizados por comunidades locais e pelas caravanas que circulavam entre o subcontinente indiano e a Ásia Central. Os atletas passam por um deserto de altitude, travessias de rios, vilarejos remotos e passos de montanha acima dos 5.000 metros.
Praticamente todas as modalidades são realizadas em regiões superiores a 3.500 metros. Durante a prova, o calor do dia pode dar lugar rapidamente a temperaturas próximas ou abaixo de zero durante a noite. A redução da concentração de oxigênio acrescenta um componente que não pode ser reproduzido apenas com treinamento de força, volume ou altimetria. (One Hundred Trail)
Por isso, a aclimatação faz parte do regulamento, e não apenas das recomendações. Os atletas devem chegar a Leh pelo menos sete dias antes das largadas, embora a organização recomende um período superior a dez dias. O percurso não será integralmente marcado, tornando obrigatórios o arquivo GPX, o equipamento de navegação e uma fonte adicional de energia. (One Hundred)
A edição pioneira mostrou o tamanho do desafio
Em agosto de 2025, os atletas convidados entraram em um território praticamente desconhecido do ponto de vista competitivo. A prova inaugural foi disputada em 100 milhas, com 6.242 metros de subida e passagem pelo Kongmaru La, localizado a aproximadamente 5.300 metros de altitude.
Somente quatro atletas concluíram integralmente o percurso. O resultado confirmou que a maior dificuldade da Ladakh Trail to Heaven não estaria apenas na distância, mas na combinação entre ar rarefeito, calor durante o dia, frio noturno, navegação, isolamento e sucessivas travessias de rios. (Trail Run Advisor)
O brasileiro Eduardo Saliba esteve entre os pioneiros selecionados para aquela primeira experiência. Acostumado às ultradistâncias, ele enfrentou as 100 milhas, mas decidiu interromper sua participação antes da chegada.
Em seu relato posterior, Saliba resumiu uma das principais lições deixadas pela edição inaugural: “na montanha, saber a hora de parar é tão importante quanto saber continuar”. A decisão tornou-se parte da própria narrativa da prova, em um ambiente no qual insistir além dos sinais apresentados pelo organismo pode transformar uma dificuldade esportiva em uma emergência médica. (Trail Run Advisor)
A presença de Saliba também estabeleceu a primeira ligação brasileira com Ladakh. Um ano depois, o país retorna ao Himalaia com uma representação maior.
Franciela Santin e Gabriel Duran representam o Brasil
Até o fechamento desta reportagem, as comunicações públicas da organização apresentavam dois brasileiros na distância de 100 milhas: Franciela Salete Santin e Gabriel Duran Rodrigues. (Instagram)
Ultramaratonista e nutricionista esportiva, Franciela chega à Índia com experiência acumulada em competições de longa duração e participação representando o Brasil em provas internacionais de 100 quilômetros. Nas semanas anteriores ao evento, a atleta acompanhou de perto o processo de aclimatação, realizando treinos progressivos em altitude e produzindo registros sobre os efeitos fisiológicos da menor disponibilidade de oxigênio. (Instagram)
Gabriel Duran Rodrigues também disputará as 100 milhas. Sua preparação foi transformada no projeto documental Road to Ladakh, no qual o brasileiro registrou o processo físico e emocional até o desafio de 158 quilômetros no Himalaia. (Amazon Music)
A participação dos dois amplia o capítulo iniciado por Eduardo Saliba. Na edição zero, o Brasil esteve representado por um atleta convidado para ajudar a testar uma prova ainda em construção. Em 2026, Franciela e Gabriel chegam para disputar uma competição plenamente integrada ao calendário mundial, com classificação, ranking, premiação e uma estrutura esportiva mais definida.
Um caminho que termina no Brasil
A relação entre o trail brasileiro e a One Hundred não termina em Ladakh. Depois da etapa indiana e da passagem pela Cro Trail, na Itália, o campeonato seguirá para sua decisão na Mons Ultra Trail.
A Grande Final em Nova Trento terá provas de 100 quilômetros, 100 milhas e 200 milhas e reunirá atletas classificados ao longo da temporada. O Brasil, portanto, ocupa duas posições dentro dessa narrativa: envia representantes para um dos desafios mais extremos do circuito e, em novembro, receberá o encerramento do campeonato. (One Hundred Trail)
Antes disso, porém, será preciso atravessar Ladakh.
A segunda edição da Trail to Heaven marca o momento em que um projeto ousado deixa o ambiente controlado dos convidados e se apresenta ao mercado internacional. A One Hundred terá a oportunidade de demonstrar que os aprendizados de 2025 foram incorporados à segurança e à operação. Os atletas, por sua vez, enfrentarão uma prova na qual ritmo, experiência e condicionamento dividem importância com aclimatação, capacidade de adaptação e tomada de decisão.
Nos Himalaias, a montanha dificilmente permite improvisos. E é exatamente essa combinação entre imprevisibilidade, altitude e resistência que transforma a Ladakh Trail to Heaven em uma das provas mais relevantes do One Hundred Trail World Championship.
Serviço
Evento: One Hundred Ladakh Trail to Heaven
Data: 6 a 8 de agosto de 2026
Local: Ladakh, Índia
Distâncias: 100 milhas, 100 km e 42 km
Brasileiros anunciados: Franciela Salete Santin e Gabriel Duran Rodrigues
Circuitos: One Hundred Trail World Championship, Seven Wonders Series e Gold Slam
Grande Final: Mons Ultra Trail, de 12 a 16 de novembro, em Nova Trento, Santa Catarina
