O trail running vive um momento de aceleração no Brasil. Alimentada por uma sede crescente de aventura, contato com a natureza e experiências fora do asfalto, a modalidade tem conquistado um número cada vez maior de adeptos. Tudo isso reflete em números, no mercado de eventos, na saúde dos praticantes e até no impacto cultural do esporte.
De acordo com reportagem recente do Portal da Tela, as corridas de trilha no Brasil registraram um crescimento de 39% na procura de 2023 a 2024, segundo dados da organização do circuito XTerra. Essa explosão não é apenas estatística: é cultural, simbólica e estruturante para o futuro das corridas no país.
O cenário do boom – eventos, participação e público
O impulso mais visível vem das provas. A XTerra, um dos circuitos off-road mais tradicionais, registrou crescimento expressivo e já planeja novas etapas para 2025 em locais emblemáticos como Nova Lima/MG e Ilha Grande/RJ. Paralelamente, a World Trail Races (WTR) também aparece como protagonista, com aumento de participação em seus eventos no Brasil.
Em reportagem da VEJA, destaca-se como o interesse de corredores migrando do asfalto para a terra tem contribuído para esse movimento: “mais de 4.000 pessoas de 39 países se inscreveram para a edição da Paraty Brazil by UTMB”, prova de trail nacional com forte apelo internacional. Segundo a Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor (ABRACEO), em parceria com a plataforma Esporte & Negócio, o número de provas oficiais realizadas em 2024 ultrapassou o de anos anteriores, com 2.827 corridas oficiais, um crescimento de 29%.
Além do volume de corridas, o perfil dos corredores também se diversifica. No trail, não basta correr rápido: muitos buscam vivência, desafio pessoal, contato com a natureza. Como destacou reportagem do O Globo, “é quase outro esporte, porque tem características muito próprias”, alertando para a necessidade de treinamento específico para subidas, descidas e terrenos imprevisíveis.
Saúde, bem-estar e impactos psicológicos
O crescimento do trail running não se limita à competição: há também forte apelo para o estilo de vida. Uma recente pesquisa da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) estudou atletas de ultratrail (corridas muito longas em trilha) e avaliou os efeitos da prática no estresse e no sistema imunológico. O estudo mediu níveis de cortisol (hormônio do estresse) e IgA salivar, antes e após uma prova de 50 km, e concluiu que a ultratrail pode ter impacto positivo na qualidade de vida, desde que bem treinada.
Isso se soma à motivação de muitos praticantes: praticar trail permite desconectar-se da rotina urbana, respirar ar puro, explorar lugares remotos e, ao mesmo tempo, desenvolver resiliência física e mental. Em reportagens, corredores afirmam que a trilha é tanto um antídoto para o estresse quanto um espaço de autoconhecimento.
Mercado em expansão e novos hábitos de consumo
O crescimento das corridas de trilha gera efeitos econômicos e de mercado. À medida que mais pessoas aderem ao esporte, cresce a demanda por equipamentos específicos: tênis de trilha, mochilas de hidratação, bastões, roupas técnicas e suplementos.
Um estudo recente publicado na Revista Brasileira de Nutrição Esportiva apontou que muitos corredores de trail usam suplementos alimentares para ajudar na recuperação e no desgaste energético típico das provas de montanha. Isso mostra que os praticantes não são apenas “aventureiros de fim de semana”: muitos encaram a trilha com estratégia nutricional, o que profissionaliza ainda mais a prática.
Além disso, com o aumento de novos eventos surgindo, organizadores têm mais espaço para investir na infraestrutura, algo cada vez mais valorizado pelos atletas, que demandam segurança, sinalização e apoio nos percursos.
Inclusão, diversidade e a força feminina
Um aspecto muito relevante desse crescimento é a participação de novos públicos: mulheres, iniciantes e pessoas que nunca correram no asfalto. Segundo a UTMB World Series, o número de mulheres no circuito global aumentou significativamente — de um quarto para quase um terço em 2024. Esse dado reflete uma tendência global, e o Brasil acompanha esse movimento de inclusão.
Coletivos como o Trail Girls e Xuxu Trails, por exemplo, têm se destacado ao incentivar a prática feminina de forma segura e acolhedora. A corrida de trilha está se tornando mais democrática, quebrando barreiras de gênero e criando uma comunidade mais diversa e envolvida.
Desafios e consequências do crescimento acelerado
Com o crescimento, também surgem desafios importantes:
- Sustentabilidade ambiental
Trilhas são ambientes sensíveis. Com mais corredores, há risco de erosão, impacto sobre a fauna e flora, e descarte de lixo. Organizar eventos maiores exige planejamento ambiental rigoroso para evitar que o crescimento do esporte prejudique a natureza que o atrai. - Segurança nas provas
Percursos de trilha exigem mais do que corridas de rua: subidas íngremes, descidas técnicas, terreno imprevisível. Organizações precisam investir em socorristas, sinalização, tempo de corte e infraestrutura mínima para garantir que os atletas estejam seguros. - Capacitação de atletas
Muitos novos praticantes vêm da corrida de rua e não têm experiência em trilhas. Isso exige educação: planejar treinos, aprender a correr/ caminhar na trilha, escolher o equipamento certo. Há risco de lesões, especialmente para quem estreia em provas longas ou muito técnicas. - Profissionalização e sustentabilidade econômica
Embora o número de provas cresça, a sustentabilidade financeira de um circuito de trail requer equilíbrio. Organizar um evento em trilha tem custos logísticos (posto de apoio, equipe médica, transporte de equipamentos, seguro), e os organizadores precisam encontrar modelos de negócio que atraiam patrocinadores, corredores e garantam viabilidade econômica.
O que vem por aí: tendências para o futuro
Diante desse cenário algumas tendências já se destacam:
- Expansão das provas: Espera-se que o número de eventos de trilha continue crescendo, especialmente em locais turísticos e regiões naturais pouco exploradas. Organizações como a WTR e a XTerra devem consolidar suas operações e lançar novas etapas.
- Valorização da experiência: Muitos corredores não buscam apenas tempo ou pódio, mas uma vivência sensorial, de imersão na natureza. Por isso, provas com percurso mais técnico, paisagens marcantes e apoio logístico (eco-cabines, acampamentos) devem se tornar mais comuns.
- Profissionalização e treinamento: Com mais corredores experientes, a demanda por treinadores especializados em corrida de trilha, planos de treino para altimetria e oficinas técnicas deve crescer. Além disso, a nutrição esportiva e estratégias de recuperação serão cada vez mais importantes.
- Sustentabilidade como prioridade: Organizadores que respeitam o meio ambiente — com práticas “leave no trace”, reflorestamento e envolvimento comunitário — terão mais credibilidade.
- Inclusão e diversidade: A participação feminina, de corredores mais velhos, adaptados e novos perfis deve continuar aumentando. Iniciativas como grupos femininos, corridas acessíveis e eventos sociais serão cada vez mais valorizadas.
O crescimento do trail running no Brasil não é uma simples moda: é uma tendência sólida, que reflete transformações profundas na forma como as pessoas se relacionam com o esporte, a natureza e o próprio corpo.
Com dados que sinalizam aumento de provas, participação feminina, eventos internacionais, preocupações ambientais e bem-estar físico e mental, o trail se firma como mais do que um nicho: é uma cultura em expansão.
Para corredores, organizadores e marcas, o desafio agora é manter esse crescimento sustentável, garantindo que as trilhas continuem sendo espaços de aventura, vivência e superação, sem perder a responsabilidade com o meio ambiente e com a comunidade que torna tudo isso possível.