No universo do trail running, existem provas que desafiam o corpo — e existem aquelas que expõem, sem filtros, os limites da mente. A Marathon des Sables, com seus cerca de 270 km em autossuficiência pelo deserto do Saara, faz parte desse segundo grupo. Considerada por muitos como a ultramaratona mais difícil do mundo, ela exige muito mais do que preparo físico: cobra estratégia, resiliência e uma capacidade rara de lidar com o desconforto extremo por dias seguidos.
Foi nesse cenário inóspito que a atleta Sabrina Schirmer escreveu mais um capítulo marcante da sua trajetória no esporte. Com um currículo que inclui desafios icônicos como o Tor des Géants, o UTMB e a Lavaredo Ultra Trail, Sabrina levou para o Saara não apenas experiência, mas uma bagagem construída ao longo de anos enfrentando algumas das provas mais exigentes do planeta.
Nesta entrevista, ela compartilha os bastidores de uma prova que exige mais estratégia do que heroísmo. Entre a necessidade de dosar o esforço, lidar com o desconforto constante e tomar decisões sob desgaste, Sabrina mostra como a experiência foi determinante do início ao fim. Mais do que resultado, o relato reforça a importância da preparação mental, da humildade e da capacidade de se adaptar — elementos que, no deserto, fazem toda a diferença para chegar até o fim.
1 – 270 km no Saara não é só físico — é mental. Em que momento você mais duvidou de si mesma durante a prova e o que te fez continuar?
“Sables é uma prova que tens que ter humildade e saber dosar. O primeiro dia é sempre mais tenso , pois tu sente muito a carga da mochila ( 10,5 kg) , sente o terreno e tem dúvidas se vai ou não sentir o calor . Neste dia me questionei o pq estava ali mas sabia que tinha experiência suficiente para chegar ao fim.”
2 – A etapa de 100 km costuma ser o ponto de ruptura da corrida. Como foi atravessar esse dia longo e o que mudou em você depois dele?
“Esse ano a etapa longa era de 100 km devido a comemoração dos 40 anos da prova. Sabíamos que passar o dia todo exposto ao sol tinha um preço . Larguei bem conservadora , diminuí consideravelmente o ritmo entre 11 e 16 horas por conta da temperatura e consegui desenvolver bem a noite. Nos últimos quilômetros a organização colocou várias placas com mensagens motivacionais o que emocionou todos os atletas , sabia que se terminasse bem essa etapa estava feito e concluir essa etapa bem e sem bolhas foi fundamental para ficar mais motivada para às próximas.”
3 – A Marathon des Sables exige autossuficiência. Qual foi a decisão mais difícil que você precisou tomar em relação a equipamento, alimentação ou estratégia?
“A autossuficiência não é fácil. Buscar o conforto no desconforto. O equipamento foi selecionado ao longo de 12 meses para ser o menor e mais leve possível . É obrigatório comprovar que tu tens 2000 calorias por dia para ingerir e a comida pesa , portanto a escolha alimentar fica em cima do que precisas realmente , nada de extra pode ser levado.”
4 – Correr no deserto é lidar com extremos. Qual foi o momento mais crítico em termos de calor, desgaste ou condição física?
“Achei que sentiria mais o calor , mas esse não foi o problema. Realizei todo o treinamento no Brasil em horário de sol e extremo e devido a alta humidade do Sul fica mais tranquilo se adaptar ao calor seco do Saara . O que realmente pega é o terreno pois os trechos de dunas e areia fofa desgastam demais”
5 – Existe um “antes e depois” de quem faz a MDS. O que essa experiência mudou na sua forma de ver o esporte — e a vida?
“Mds é mais que uma corrida , é uma jornada de autoconhecimento. Ninguém sai de lá igual . Te faz refletir sofre a vida , sobre o que realmente importa para você.”
6 – Ao longo de seis dias, o corpo entra em colapso progressivo. Como você lidou com dor, bolhas, fadiga e privação de conforto?
“O mais difícil para mim foi o sono . Dormimos em uma tenda praticamente aberta e cheia de areia com 8 pessoas, faz muito frio a noite e venta demais.Dormir bem é difícil. Praticamente não tive bolhas , mas de fato esse é uma grande problema por lá .”
7 – Em provas tão longas, a estratégia é tão importante quanto a força. O que você faria diferente hoje, sabendo tudo que viveu?
“Não faria nada diferente . Fiz tudo o que era possível para chegar lá na minha melhor versão.”
8 – A convivência no acampamento é única. Teve algum momento ou história com outros atletas que marcou você durante a semana?
“No acampamento se constrói uma família. Nossa tenda formada por mulheres foi sensational, todas se ajudavam e torciam uma pelas outras . Amizades que levo para a vida.”
9 – Você competiu ou sobreviveu? Em que momento a prova deixou de ser sobre resultado e passou a ser sobre chegar até o fim?
“Não corro por resultados a anos. Procuro chegar nas provas sempre fazendo o meu melhor. Depois de 3o anos no esporte busco experiências e desafios que me tirem na zona de conforto. Resultados são apenas números, nada mais…”
10 – Para quem sonha em encarar a Marathon des Sables, qual é a verdade que ninguém conta sobre a prova — mas deveria?
“É uma experiência incrível mas você tem que estar disposto a saber lidar com o desconforto. Não é o calor que te derruba e sim o fato de a tua cabeça não estar preparada para saber lidar com às adversidades . Isso é uma coisa que ninguém te ensina , somente a vida e muitos quilômetros em baixos dos pés vão te dar esse conhecimento.”