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HOPE: quatro atletas em cadeira de rodas encaram 170 km ao redor do Mont Blanc

Projeto de inclusão percorrerá grande parte do trajeto da UTMB 2026 com cadeiras adaptadas e equipes de apoio. Mais do que completar a distância, desafio pretende mostrar que a alta montanha pode ser mais acessível a atletas com deficiência

Enquanto os principais nomes do ultratrail mundial se preparam para enfrentar os 174 quilômetros da UTMB, uma outra história será escrita nas montanhas ao redor do Mont Blanc. Quatro atletas em cadeira de rodas vão encarar aproximadamente 170 quilômetros e 10.000 metros de ganho de elevação em um desafio que percorrerá grande parte do trajeto da UTMB 2026.

Batizado de HOPE, o projeto nasceu de uma parceria entre o UTMB Group e o Marathon des Sables (MDS). A iniciativa acontecerá paralelamente às provas do evento em Chamonix, mas não fará parte oficialmente da competição.

O objetivo vai muito além de chegar à linha de chegada.

A proposta é colocar a inclusão à prova nas condições reais de uma das rotas de ultradistância mais exigentes do planeta e descobrir, na prática, quais adaptações são necessárias para permitir que atletas com deficiência também possam enfrentar terrenos de montanha.

Quatro atletas, um desafio de 170 quilômetros

Os protagonistas do projeto serão a suíça Delia Guggenheim e os franceses Aubin Barillon e Caroline Fruchaud, além do italiano Federico Rossi.Cada atleta contará com uma equipe de seis a oito pessoas responsável por empurrar, puxar e auxiliar a cadeira durante os trechos mais técnicos e difíceis do percurso. Além da equipe de apoio, cada grupo terá um médico ou enfermeiro acompanhando o desafio. Os quatro partirão juntos de Chamonix, na sexta-feira, 28 de agosto, às 11h. A expectativa é que os grupos completem os quilômetros finais juntos e cruzem a chegada durante a tarde de domingo. Ao longo do percurso, serão aproximadamente 170 quilômetros e 10.000 metros de desnível positivo. Não se trata, portanto, apenas de uma ultramaratona adaptada. É também um grande teste logístico.

A montanha como laboratório de inclusão

Antes de encarar o desafio completo, os organizadores realizaram, em junho, um teste em alguns setores do percurso utilizando cadeiras de rodas desenvolvidas para terrenos off-road. A experiência mostrou que os trechos podem ser superados, mas também deixou claro que a acessibilidade na montanha exige equipamentos específicos, equipes treinadas e planejamento detalhado. “HOPE representa exatamente o que queremos promover: não apenas falar sobre inclusão, mas criar os meios para torná-la realidade”, explicou Michel Poletti, cofundador do UTMB Group.

É justamente esse o principal objetivo do projeto.

Durante os 170 quilômetros, os organizadores pretendem identificar obstáculos, avaliar equipamentos e compreender quais adaptações podem tornar provas de trail e ultratrail mais acessíveis. A experiência servirá posteriormente para analisar e aperfeiçoar cadeiras, sistemas de assistência, protocolos de segurança e preparação das equipes.

Histórias que vão muito além da corrida

Embora nenhum dos quatro tenha enfrentado anteriormente um desafio exatamente igual ao HOPE, todos chegam ao projeto com experiências esportivas importantes. A suíça Delia Guggenheim, de 23 anos, já competia em provas de ultradistância e triatlo Ironman antes de sofrer um acidente de trânsito em 2025, que provocou uma paraplegia. Antes do acidente, ela havia completado o MDS Legendary. Agora, prepara-se para participar também do MDS Handi, no Marrocos, em outubro. O francês Aubin Barillon ficou paraplégico aos 13 anos e participou da primeira edição do MDS Handi, em 2024. Caroline Fruchaud sofreu uma lesão em um acidente de esqui em 2018. Desde então, permaneceu ligada ao esporte e pratica diferentes modalidades, incluindo trail running, ciclismo, esqui adaptado e basquete em cadeira de rodas. Já o italiano Federico Rossi, atleta paralímpico e músico, também acumula desafios pouco convencionais. Entre eles está a ascensão do Stelvio, uma das mais famosas e exigentes subidas de montanha da Itália, utilizando exclusivamente a força da parte superior do corpo.

Inclusão além do HOPE

O projeto não será a única demonstração de esporte adaptado durante a semana da UTMB. Ao todo, até 15 atletas com deficiência participarão de diferentes provas do evento em 2026. Entre eles está Fanny Barbara, que retornará à UTMB depois de ter passado por uma cirurgia para retirada do pulmão esquerdo em 2014. Também estará presente Julien Veysseyre, atleta com amputação abaixo do joelho. Já Pierre Cabon participará da MCC utilizando uma cadeira de rodas adaptada e contará com o auxílio de uma equipe formada por seis pessoas.

Mais do que chegar à meta

O verdadeiro resultado do HOPE não estará apenas no cronômetro ou na linha de chegada. A expectativa dos organizadores é utilizar cada quilômetro percorrido para descobrir onde estão as principais barreiras para atletas que utilizam cadeira de rodas nas montanhas. Como transportar uma cadeira em terrenos extremamente técnicos? Quantas pessoas são necessárias para auxiliar um atleta? Quais equipamentos funcionam melhor? Como garantir segurança em descidas, trechos estreitos e grandes desníveis?

São perguntas que o projeto pretende responder na prática.

Depois da experiência, UTMB Group e Marathon des Sables pretendem reunir os aprendizados e transformá-los em melhorias nos equipamentos, sistemas de assistência, protocolos de segurança e preparação das equipes. No fim, os 170 quilômetros ao redor do Mont Blanc representam apenas uma parte do desafio. A verdadeira meta do HOPE é ajudar a transformar o esporte de montanha em um espaço onde a deficiência não seja automaticamente uma barreira para chegar à largada. E, se o projeto conseguir provar que um dos percursos mais difíceis do mundo pode ser enfrentado com as adaptações certas, a chegada em Chamonix poderá significar muito mais do que quatro atletas completando uma grande aventura.

Bruno Mattos: Atleta skyrunning, designer e repórter.
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