11ª edição reúne milhares de corredores em Passa Quatro e transforma a Serra Fina novamente no grande palco do trail running brasileiro
Passa Quatro, no sul de Minas Gerais, voltou a ser o centro do trail running brasileiro neste fim de semana. Entre os dias 12 e 16 de agosto, a cidade recebeu a 11ª edição da La Misión Brasil, uma das provas mais tradicionais do calendário nacional de corridas de montanha.
Com sete distâncias — 110 km, 80 km, 55 km, 35 km, 25 km, 15 km e 7 km —, a competição levou os corredores para trilhas da Serra da Mantiqueira e da Serra Fina em uma experiência que vai muito além de uma corrida convencional.
A própria organização resume a filosofia do evento em uma frase: “Não é uma corrida, é La Misión.”
E a edição de 2026 fez jus ao slogan.
Mais de 5 mil corredores eram esperados para percorrer as montanhas da região nas diferentes modalidades, em um evento que combina competição, autossuficiência, montanhismo e convivência entre atletas.
Uma prova diferente
A La Misión Brasil não segue exatamente o modelo tradicional de uma ultramaratona com uma sequência de postos de abastecimento. A competição é disputada em regime de autossuficiência e permite que o atleta administre sua própria estratégia ao longo do percurso.
O corredor pode correr, caminhar, parar e descansar quando considerar necessário, desde que cumpra o percurso dentro do tempo limite e respeite as regras de segurança.
O regulamento estabelece ainda que os participantes precisam carregar os equipamentos obrigatórios, alimentação e hidratação necessários para enfrentar a montanha.
É justamente essa combinação entre liberdade e responsabilidade que dá à La Misión uma identidade própria dentro do trail brasileiro.
O grande desafio: 110 km pela Serra Fina
A prova principal começou às 21h de quinta-feira, 13 de agosto. A largada noturna colocou os atletas diante de um dos maiores desafios do evento: os 110 km pela Serra Fina.
O percurso oficial tem 110 km aferidos, cerca de 6.348 metros de ganho de elevação, outros 6.348 metros de desnível negativo e altitude máxima de 2.798 metros. O trajeto atravessa alguns dos pontos mais emblemáticos da Serra Fina, incluindo Capim Amarelo, Pedra da Mina e Três Estados.
O tempo limite era de 39 horas, com chegada até o meio-dia de sábado, 15 de agosto. Ao longo do percurso, os atletas também enfrentaram pontos de corte progressivos, tornando a estratégia tão importante quanto a capacidade física.
Maria da Cunha vence os 110 km
No feminino, Maria da Cunha foi a grande campeã dos 110 km, completando o percurso em 21h23min43.
A vitória foi apertada. Apenas 5min18 separaram Maria da segunda colocada, Jannicken Hoftun Versori, que terminou em 21h29min01.
Ilma Rangel ficou em terceiro, com 21h55min39, enquanto Camila Nicolau terminou em quarto, com 22h58min19. Paloma Galper completou o top 5, em 24h12min48.
No masculino, Fernando Ruben Mendieta venceu a principal distância da La Misión Brasil em 14h28min33. A disputa pelo primeiro lugar foi ainda mais apertada: Rogério Silvestrin chegou apenas 1min26 depois, em 14h29min59.
O pódio masculino foi completado por Rodrigo Oliveira, com 16h12min09; Paulo Galvao, com 17h09min28; e Cesar Henrique Picinin, com 17h34min18.
110 km — feminino
- Maria da Cunha — 21h23min43
- Jannicken Hoftun Versori — 21h29min01
- Ilma Rangel — 21h55min39
- Camila Nicolau — 22h58min19
- Paloma Galper — 24h12min48
110 km — masculino
- Fernando Ruben Mendieta — 14h28min33
- Rogério Silvestrin — 14h29min59
- Rodrigo Oliveira — 16h12min09
- Paulo Galvao — 17h09min28
- Cesar Henrique Picinin — 17h34min18
80 km: travessia completa da Serra Fina
A segunda maior distância largou às 4h da sexta-feira. Apesar de chamada de 80K, a distância aferida do percurso é de 83 km, com aproximadamente 5.511 metros de ganho de elevação e altitude máxima de 2.798 metros.
Assim como nos 110 km, os atletas atravessaram os principais cumes da Serra Fina, incluindo Capim Amarelo, Pedra da Mina e Três Estados. O limite para completar o desafio era de 32 horas.
No feminino, Juliana Stolarski foi a campeã, com 13h44min15, estabelecendo uma vantagem de exatamente duas horas sobre a segunda colocada, Letícia Saltori, que marcou 15h44min21.
Patrícia Honda terminou em terceiro, seguida por Fátima Aparecida Baltazar e Sue Ellen Mafra.
Entre os homens, Wellington Noronha venceu com 11h52min21. Hélio Neto foi segundo, apenas 13min06 atrás do campeão.
80 km — feminino
- Juliana Stolarski — 13h44min15
- Letícia Saltori — 15h44min21
- Patrícia Honda — 16h44min45
- Fátima Aparecida Baltazar — 19h16min13
- Sue Ellen Mafra — 19h35min23
80 km — masculino
- Wellington Noronha — 11h52min21
- Hélio Neto — 12h05min27
- Vicente Machado — 12h24min21
- Bruno Kuzmann — 13h16min49
- Wilton Nascimento — 13h31min07
55 km: Pedra da Mina como protagonista
Nos 55 km, a La Misión propôs um percurso ainda bastante exigente. A distância aferida é de 58 km, com aproximadamente 4.025 metros de desnível positivo e altitude máxima de 2.798 metros.
O trajeto passa por Quartzito, Capim Amarelo e Pedra da Mina antes de descer pela região conhecida como Deus Me Livre e seguir novamente em direção às montanhas.
A largada aconteceu às 7h de sexta-feira.
Isabela Germano venceu entre as mulheres, completando a prova em 9h31min25. Jasieli Dalla Rosa ficou em segundo, pouco mais de 30 minutos atrás, enquanto Mahira Braga terminou apenas 1min48 depois da vice-campeã.
No masculino, Felipe Costa foi o vencedor, com 8h29min22. Kenetti Diego Schabileski ficou em segundo, seguido por João Luiz Silva, Diego Tales e Carlos Fonseca Junior.
55 km — feminino
- Isabela Germano — 9h31min25
- Jasieli Dalla Rosa — 10h01min59
- Mahira Braga — 10h03min47
- Lívia Felipe Gomes — 10h47min20
- Camila Rocha — 11h09min01
55 km — masculino
- Felipe Costa — 8h29min22
- Kenetti Diego Schabileski — 8h39min04
- João Luiz Silva — 8h42min28
- Diego Tales — 8h50min49
- Carlos Fonseca Junior — 8h53min50
35 km: montanha em alta intensidade
A distância intermediária de 35 km largou às 6h de sexta-feira e ofereceu uma experiência mais curta, mas ainda bastante exigente para quem escolheu a montanha.
No feminino, Ana Paula Silveira conquistou a vitória em 5h14min41, seguida por Ewelin Cristina de Mello, Ana Paula Massucato, Lucia Magalhães Toledo e Silvia Guimaraes.
Entre os homens, Ayslan Miragaia venceu em 4h11min14. Cléber Maraga terminou em segundo, com 4h22min43, e Caio Lima completou o pódio em 4h30min31.
35 km — feminino
- Ana Paula Silveira — 5h14min41
- Ewelin Cristina de Mello — 5h21min55
- Ana Paula Massucato — 5h32min15
- Lucia Magalhães Toledo — 5h52min33
- Silvia Guimaraes — 6h06min44
35 km — masculino
- Ayslan Miragaia — 4h11min14
- Cléber Maraga — 4h22min43
- Caio Lima — 4h30min31
- Augusto Faria — 4h33min53
- Gabriel Moreira — 4h39min32
25 km: chegada decidida no detalhe
A prova de 25 km, disputada no sábado pela manhã, teve um dos resultados mais curiosos da edição.
Leticia Gallas e Bianca Ferreira terminaram exatamente com o mesmo tempo: 3h31min02.
Bruna Fonseca ficou em terceiro, apenas 29 segundos atrás das vencedoras, enquanto Ester Prado e Bianca Roos completaram o top 5.
No masculino, Lucas Gonçalves venceu em 2h42min17, somente 30 segundos à frente de Vinicius Jamaica.
25 km — feminino
- Leticia Gallas — 3h31min02
- Bianca Ferreira — 3h31min02
- Bruna Fonseca — 3h31min31
- Ester Prado — 3h34min10
- Bianca Roos — 3h34min39
25 km — masculino
- Lucas Gonçalves — 2h42min17
- Vinicius Jamaica — 2h42min47
- Tiago Henrique Ferreira — 2h47min37
- Daniel Nogueira — 2h53min43
- Luis Henrique Ohde — 2h57min42
15 km: uma prova para entrar na montanha
Os 15 km representam uma porta de entrada para quem quer experimentar o universo da La Misión sem enfrentar as distâncias ultramaratônicas.
O percurso oficial passa pela Floresta Nacional de Passa Quatro, com 15 km aferidos, 895 metros de ganho de elevação e altitude máxima de 1.370 metros. A organização define a distância como “uma grande aventura”.
No feminino, Rozelene Padilha venceu com 1h38min06.
No masculino, João Muniz e Douglas Gouvea protagonizaram uma chegada apertada. Muniz venceu com 1h21min00, apenas sete segundos à frente de Gouvea.
15 km — feminino
- Rozelene Padilha — 1h38min06
- Sandra Martins — 1h43min49
- Josilaine Martins — 1h45min48
- Angela Maria Damasceno — 1h51min39
- Louise Lima — 1h52min25
15 km — masculino
- João Muniz — 1h21min00
- Douglas Gouvea — 1h21min07
- João Marcelo Fonseca — 1h25min52
- Paulo Geovani — 1h26min03
- Bruno Corrêa — 1h27min26
7 km fecha a programação competitiva
A menor distância da La Misión Brasil encerrou a programação principal de provas no sábado.
Com limite de quatro horas e sem pontos de corte, os 7 km oferecem uma experiência mais acessível do evento, mantendo o contato com a natureza e as trilhas da região.
Tatiane Roncoletta venceu entre as mulheres em 47min52. Ingrid Marins foi segunda, com 49min28.
Entre os homens, Vitor Iago Faria dos Santos venceu com 37min25, seguido por William Cesar Nogueira Silva e Lucas Ferreira.
7 km — feminino
- Tatiane Roncoletta — 47min52
- Ingrid Marins — 49min28
- Anne Franco — 54min27
- Carolina Martins — 54min39
- Luciana Portes — 55min03
7 km — masculino
- Vitor Iago Faria dos Santos — 37min25
- William Cesar Nogueira Silva — 38min54
- Lucas Ferreira — 38min55
- Caio Gabriel — 39min53
- Jonathan Soares — 40min02
Mais do que uma ultramaratona
A La Misión Brasil encerra a semana deixando uma característica que talvez seja mais importante do que os próprios resultados: a capacidade de transformar Passa Quatro em um ponto de encontro do trail running brasileiro.
Durante cinco dias, a cidade recebeu atletas, familiares, equipes, staffs e amantes da montanha. A programação começou na quarta-feira, com abertura da arena, expo, praça de alimentação, check-in e retirada dos kits, e seguiu com as largadas das diferentes modalidades até o sábado.
A organização afirma que o trabalho para colocar a prova de pé começa praticamente imediatamente após o encerramento da edição anterior. São meses de planejamento, reuniões, contratação de fornecedores, preparação de estruturas e posicionamento de equipes nas montanhas. Em 2026, a própria organização destacou que são cerca de 12 meses de trabalho contínuo para chegar aos dias do evento.
A estrutura também inclui iniciativas que extrapolam a competição principal. A La Misión Kids, por exemplo, permite que crianças de até sete anos participem de uma experiência recreativa própria, enquanto a programação infantojuvenil amplia o contato de novos corredores com a montanha.
A montanha como personagem principal
O grande diferencial da La Misión, porém, continua sendo o cenário.
Passa Quatro está localizada no entorno da Serra Fina, na Mantiqueira, região conhecida por algumas das travessias de montanha mais exigentes do Brasil. A prova utiliza justamente esse ambiente para construir sua identidade: trilhas, grandes desníveis, altitudes elevadas, trechos técnicos e longos períodos de esforço individual.
Nos 110 km, a combinação chega ao extremo: uma largada noturna, travessia completa da Serra Fina, mais de 6.300 metros de subida acumulada e passagem por alguns dos principais cumes da região.
É por isso que os números da classificação contam apenas parte da história.
Para cada campeão que cruzou a linha de chegada, milhares de outros atletas enfrentaram a própria missão: administrar alimentação, sono, frio, altitude, descidas, subidas, cansaço e, principalmente, a imprevisibilidade da montanha.
No fim, é exatamente isso que a La Misión parece querer representar.
Não é apenas chegar primeiro. É completar a missão.
E, por mais um ano, Passa Quatro foi o palco dessa história.