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O desafio invisível da montanha está dentro de você

Recentemente, com a temporada de provas de montanha a todo vapor, muitos atletas se assustam com as distâncias que escolheram. Às vezes, a empolgação do momento fala mais alto, e só depois, ao olhar com mais clareza para a rotina, o momento de vida ou o nível atual de preparo, é que percebem: talvez aquela distância não seja a mais adequada.

E então surge uma decisão difícil — mudar de categoria ou desistir.

Desistir pode parecer a única saída, mas nem sempre é a mais necessária. Em muitos casos, trocar por uma distância menor é uma escolha inteligente e responsável. Essa alternativa permite que você ainda viva a experiência da prova, de maneira mais alinhada com a sua realidade. Não é sobre fazer menos, mas sim sobre fazer o que faz sentido agora. É um ato de respeito: ao seu corpo, ao seu momento, ao seu processo.

Para alguns, isso pode parecer uma derrota. Afinal, o ego sussurra alto, a comparação grita. Mas deve existir algo maior: o respeito por si mesmo.

Do ponto de vista psicológico, essa escolha representa maturidade emocional. Envolve superar o ego — muitas vezes atrelado à necessidade de validação ou às expectativas externas — e ter coragem para olhar com honestidade para dentro de si. É um exercício de autoconhecimento escolher o que prioriza a segurança, o bem-estar e o prazer de correr.

E se, mesmo reavaliando a distância, a conclusão for que não faz sentido participar da prova este ano, ou não consegue mais mudar para outra distância, tudo bem. Desistir, nesse caso, também pode ser um ato de cuidado e responsabilidade. Não é fraqueza: é saber quando parar, quando recuar, e quando preservar-se é mais valioso do que insistir.

O importante é lembrar: desistir de uma prova não é desistir de si. É escolher continuar — de outro jeito, em outro tempo, com mais consciência.

Essa decisão não diminui ninguém. Pelo contrário: fortalece.

Vamos a alguns exemplos práticos para ilustrar melhor o que estamos falando.

A La Misión, por sua vez, importada da Argentina, mas com uma versão brasileira igualmente desafiadora, não faz concessões. Em qualquer uma das distâncias você vai encarar trilhas íngremes, terrenos técnicos, longos trechos de caminhada, altitudes elevadas e um tempo de prova muito maior do que está acostumado em corridas convencionais. A diferença não está apenas na quilometragem — está no terreno, na exposição aos elementos, na necessidade de autossuficiência e, principalmente, nas muitas horas que se passa imerso na montanha.

E isso muda tudo.

Porque a montanha não exige apenas preparo físico. Ela cobra da mente. O desafio invisível está justamente ali: nas longas horas de silêncio, enfrentando calor, frio, neblina, chuva, solidão, câimbras e, principalmente, os próprios pensamentos. Não é raro que surjam dúvidas internas como “o que estou fazendo aqui?”, “será que dou conta?”, “por que não escolhi a distância menor?”.

Por isso, o preparo psicológico é tão essencial quanto o físico. Aceitar com consciência a distância escolhida — seja ela maior ou menor —, reconhecer os próprios limites e assumir a responsabilidade pela decisão feita fortalece a mente para os momentos mais difíceis da prova. Entrar em conflito com a escolha feita é carregar um peso emocional que poderia ser evitado.

Quando expectativa e realidade estão alinhadas, o foco volta aonde deve estar: no próximo passo. É aí que mora a força. Como? Há muito que você pode fazer para chegar nesse estado de presença: estudar o percurso e sua altimetria, treinar com consistência (não com heroísmo), simular trechos parecidos com o que vai encontrar, carregar o que precisa, conhecer seus sinais de alerta. Saber o que está enfrentando reduz o impacto da surpresa.

Mas preparar-se emocionalmente para o imprevisto também faz parte da jornada. Nessas horas, pequenas atitudes fazem toda a diferença: praticar flexibilidade mental, manter um diálogo interno respeitoso, dividir metas grandes em trechos menores, respirar fundo, lembrar do propósito. Tudo isso são formas simples — mas potentes — de atravessar momentos difíceis com mais leveza.

E se, mesmo assim, algo acontecer e você perceber que não dá mais para continuar, lembre-se: parar não é fracassar. Saber quando recuar, pedir ajuda ou desistir pode ser, sim, um gesto de coragem e responsabilidade. Estar presente para fazer essa leitura com honestidade é sinal de maturidade, não de fraqueza.

No fim, na La Misión ou em qualquer outra prova exigente, o mais importante é lembrar que o desafio não é só físico. É interno. E é justamente isso que torna tudo tão especial.

Cuidar de si é um ato de força!

Mudar de distância, parar no meio, ou até mesmo nem largar — nenhuma dessas decisões define o seu valor. O que importa é a intenção, a consciência e o respeito consigo mesmo e com a montanha.

O verdadeiro atleta não é quem corre mais longe, mas quem volta inteiro.
Cuidar de si é o maior gesto de respeito — por você, pelo esporte e pela natureza. 

Divirta-se ! As montanhas te esperam!! 

Texto por Silvia Schreer


Camila Melo:
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