Texto por: Silvia Schreer
Se você é do tipo que gosta de ter tudo sob controle, prepare-se: o trail running pode ser seu maior teste — e, paradoxalmente, sua melhor terapia.
Nas trilhas, a única certeza é que alguma coisa vai sair diferente do planejado. Pode ser uma tempestade de última hora, uma rota bloqueada, um tornozelo torcido, um equipamento que falha… e outras muitas coisas que podem acontecer de uma forma melhor também!
Para quem gosta de planejar cada detalhe, essa imprevisibilidade é desconfortável. Mas também é transformadora.
O trail ensina que nem tudo depende de nós — e que tudo bem acontecer assim. É um treino mental poderoso,para lidar com o que não pode ser mudado e responder de forma inteligente ao que se apresenta. É nesse momento que eu, como atleta e terapeuta, recorro aos meus ‘porquês’, ‘o quês’ e ‘para quês’ — perguntas simples, mas que reorganizam a mente e dão sentido à próxima escolha. Elas ajudam a lembrar por que estou ali, o que realmente importa e para que cada passo vale a pena, mesmo quando o cenário não é o que eu planejei.
Planejar é fundamental. Estudar o percurso, pensar na estratégia de hidratação e alimentação, revisar o clima, preparar os equipamentos… Tudo isso constrói segurança. Controlar o que podemos controlar!
O plano serve como âncora: ajuda a administrar a ansiedade, organizar prioridades e chegar mais confiante. Mas lembre-se — ele é ponto de partida, não de chegada. Quando o cenário muda, é preciso saber ajustar o rumo.
Hora de soltar – Deixar fluir
Deixar fluir não é abandonar. É abrir espaço para a adaptação.
O flow acontece quando corpo e mente já estão alinhados, e tudo flui de forma tão natural que o mundo ao redor parece desaparecer. Você não está “pensando” em cada passo — está simplesmente vivendo o movimento, imerso naquilo que está fazendo. Para chegar lá, é preciso confiar no que foi treinado e permitir-se estar 100% presente. O flow não surge quando você tenta controlar tudo; ele aparece quando você aceita o que a trilha oferece e responde com o que você tem naquele momento.
Vamos lembrar que Flow e Clutch são duas palavras chaves para lidar com o imprevisto.
Entender flow e clutch como partes de um sistema de autorregulação esportiva pode ajudar a lidar com imprevistos — é o que estudos em psicologia esportiva vêm explorando (Swann et al., 2021).
O flow é aquele estado em que a ação parece natural e fluida, geralmente em situações de desafio equilibrado. Já o clutch aparece em momentos de alta pressão, quando é preciso desempenho máximo, foco afiado e tomada de decisão rápida. Pesquisadores defendem que atletas que reconhecem e treinam essas duas “modalidades mentais” conseguem transitar entre elas conforme a demanda da prova. Isso significa que, numa corrida de trail, você pode estar em flow no trecho de descida, aproveitando o ritmo natural, e entrar em clutch numa subida técnica sob chuva, onde cada passo exige atenção total. Esse jogo mental amplia a resiliência e permite que você use a pressão como aliada, e não como bloqueio.
Pesquisas com corredores de trail mostram que manter padrões pessoais elevados, mas sem autocrítica excessiva, favorece o flow (Stoeber et al., Current Psychology, 2023).
O antídoto para o perfeccionismo
O trail é impiedoso com a busca pela perfeição. O barro não respeita tênis limpo, o desnível não vai suavizar para te agradar, e a neblina não vai “esperar passar” para a foto perfeita.
Quando você solta a cobrança, a corrida fica mais leve, mais divertida — e muitas vezes mais eficiente. A energia que antes ia para manter o controle agora está livre para impulsionar cada passo. Livre para viver o momento presente. Como o próprio nome diz : um “presente”.
Da trilha para a vida
O equilíbrio entre controle e entrega não é só uma estratégia de corrida — é uma filosofia de vida.
No dia a dia, assim como na trilha, surgem tempestades fora do radar, caminhos bloqueados e mudanças inesperadas de direção. E não, você não vai controlar tudo. Mas pode sempre escolher como reagir.
Essa flexibilidade é uma habilidade treinável. E o treino, na montanha, vem com vento no rosto, lama na canela e aquele sorriso de quem sabe que, no fim, a jornada é tão valiosa quanto a chegada.
“A montanha não pede permissão para mudar o plano. Ela só quer saber: você vai continuar?” Viva o flow na motanha
QUEM VEM COMIGO ?
Referências bibliográficas
Swann, C., Keegan, R., Piggott, D., & Crust, L. (2021). The experience of flow and clutch states in sport: A systematic review and meta-analysis. Psychology of Sport and Exercise, 52, 101804. https://doi.org/10.1016/j.psychsport.2020.101804
Stoeber, J., Madigan, D. J., & Donachie, T. C. (2023). Striving for a perfect flow? Testing the 2 × 2 model of perfectionism in trail runners. Current Psychology.
Para Saber Mais
- O que é o estado de Flow? (flow na montanha)
Proposto pelo psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, o flow é um estado de imersão total na atividade, onde desafio e habilidade estão equilibrados. No esporte, ele está ligado a foco intenso, sensação de controle e prazer na execução. - Flow e Clutch: dois modos mentais
Estudos mais recentes (ScienceDirect, 2021) exploram como atletas alternam entre flow e clutch. O primeiro é natural e leve; o segundo, afiado e estratégico, surge sob pressão. Treinar essa transição ajuda a responder melhor a imprevistos. - Perfeccionismo saudável x autocrítico
Pesquisas com corredores de trail (ResearchGate, 2023) mostram que manter padrões pessoais elevados (perfectionistic strivings) pode favorecer o flow. Já o perfeccionismo autocrítico (evaluative concerns) tende a dificultar essa experiência. - Motivação orientada à tarefa
Revisões em psicologia esportiva (PMC, 2015) indicam que atletas focados na tarefa — e não apenas na comparação com outros — tendem a vivenciar mais flow e maior satisfação no treino e na competição.