Apesar do retorno a algumas das condições mais duras da história do evento, a Terra de Gigantes 2026 entregou as performances mais rápidas já registradas no percurso. Neve, ventos de inverno e um terreno brutal não foram suficientes para frear os campeões, que reescreveram o livro de recordes desde os picos mais altos de Portugal até a costa do Atlântico.
A largada aconteceu sob frio cortante, com neve cobrindo o solo congelado e nuvens densas engolindo os cumes das montanhas — um lembrete de que o sol do ano passado foi exceção, não regra.
Logo nos primeiros quilômetros, o pelotão despencou em descida sob condições de verdadeira nevasca, quando o britânico Robbie Britton assumiu a dianteira, impondo um ritmo imediatamente acompanhado pelo compatriota Dave Phillips. Detentor do recorde britânico de 24 horas, Britton chegou à prova com um currículo de elite e pódios internacionais recentes, enquanto Phillips vinha em forma impressionante após a medalha de prata na Gran Canaria 360 Challenge e a vitória na Essex Way Ultra 82 Miles.]
Em um dos maiores pelotões femininos já vistos na Terra de Gigantes, Rebecca Hormann começou a se destacar quase imediatamente. Com um currículo sólido de cinco vitórias em 2024 e 2025 — incluindo triunfos dominantes em provas de 100 milhas —, a suíça mostrou sua força ao assumir o controle da prova feminina e avançar de forma contundente até o top 3 geral.
O amanhecer do Dia 2 revelou um dado impressionante: apesar das condições geladas, os líderes das provas masculina e feminina já estavam mais adiantados no percurso do que no mesmo ponto da edição de 2025. A questão já não era mais a velocidade, mas sim a sustentabilidade do esforço.
Com Torre e Açor para trás, restava apenas um gigante: o Alto de Trevim. Elevando-se a 1.200 metros acima do nível do mar, Trevim oferece vistas amplas em dias claros — a Serra da Estrela, onde a prova começou, e ao longe, o Oceano Atlântico e a chegada em Nazaré.
Ao longo de dois pores do sol completos, os atletas seguiram avançando, encontrando breve abrigo em pequenas cidades antes de retornarem a subidas expostas e estradas úmidas, onde os ventos de inverno castigavam implacavelmente as áreas mais altas. Na frente da prova, o trio líder ultrapassou os limites da exaustão para produzir algo verdadeiramente especial.
Esse momento chegou nas primeiras horas da madrugada, com ondas de nove metros quebrando logo além do pórtico de chegada em Nazaré. Sob ventos fortes que varriam a Praça Sousa Oliveira, Dave Phillips cruzou a linha de chegada em 40:51:33. Ele ultrapassou Britton nos 50 quilômetros finais para conquistar a vitória — e pulverizar o recorde do percurso em quase sete horas.
Britton pagou o preço pelo ritmo feroz que impôs desde o início, mas se reorganizou para garantir o segundo lugar em 45:31:12. Logo atrás, Hormann chegou em 46:13:46, conquistando o título feminino e um impressionante terceiro lugar geral, quebrando o recorde feminino da prova em mais de nove horas.
Os três superaram a marca vencedora de 47:45:46 estabelecida pelo então campeão Dani Corvo, que não conseguiu completar a prova após cerca de 20 horas na edição deste ano.
Carlos Abreu completou o pódio masculino em 49:51:57, garantindo também um feito especial como o primeiro português a cruzar a linha de chegada. Entre as mulheres, a irlandesa Una Miles ficou com a prata em 56:59:41, enquanto a italiana Francesca Ferraro conquistou o bronze em 71:45:26, chegando dentro do limite de 74 horas.
Com os tempos vencedores caindo progressivamente de 49:33 em 2023 para 47:45 em 2025, 2026 marcou um salto sísmico no desempenho. Os recordes não foram apenas quebrados — foram completamente reescritos.
A Terra de Gigantes entregou, mais uma vez, uma chegada histórica, abrindo oficialmente a temporada 2026 do One Hundred World Championship e distribuindo os primeiros pontos do campeonato como parte da Alliance Series.