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UTMB 2026: Ben Dhiman e Blandine L’Hirondel fazem história em Chamonix

Americano domina a prova masculina com 18h16min29s, enquanto francesa se torna a primeira mulher a completar a UTMB abaixo das 22 horas

 

A UTMB 2026 terminou com duas performances históricas nas trilhas de Chamonix. Ben Dhiman e Blandine L’Hirondel venceram as disputas masculina e feminina, respectivamente, em uma edição marcada por mudanças no percurso, tempestades, frio intenso e ventos fortes.

Na prova masculina, o americano Ben Dhiman confirmou a evolução apresentada no ano anterior e conquistou o título com uma atuação dominante. Na feminina, a francesa Blandine L’Hirondel escreveu seu nome na história ao se tornar a primeira mulher a completar a UTMB em menos de 22 horas.

A edição deste ano teve aproximadamente 174 quilômetros e 9.700 metros de ganho de elevação. Por causa da previsão de tempestades sobre o maciço do Mont Blanc, a largada foi adiada em cerca de duas horas e o percurso sofreu alterações, incluindo a retirada do trecho das Pyramides Calcaires.

Ben Dhiman: da frustração ao título histórico

Vice-campeão em 2025, Ben Dhiman chegou à edição de 2026 determinado a transformar a frustração do segundo lugar em vitória. E não apenas venceu: o americano estabeleceu o tempo mais rápido já registrado na história da UTMB.

Dhiman cruzou a linha de chegada em Chamonix em impressionantes 18h16min29s, tornando-se o primeiro atleta a completar a prova masculina abaixo das 19 horas.

O tempo foi mais de uma hora inferior às 19h18min58s registradas por Tom Evans na vitória de 2025.

Embora o resultado não possa ser oficialmente reconhecido como recorde do percurso, devido às alterações provocadas pelas condições climáticas, a marca de Dhiman ganha ainda mais peso por ter sido registrada em um percurso semelhante ao utilizado na edição anterior, que também sofreu modificações por causa do clima.

Com a vitória, o americano tornou-se apenas o segundo homem dos Estados Unidos a conquistar a UTMB. O primeiro havia sido Jim Walmsley, campeão em 2023.

A trajetória de Dhiman em Chamonix também ganhou contornos especiais. Em suas duas primeiras participações, o atleta não conseguiu completar a prova. Em 2025, veio a grande virada, com o segundo lugar. Um ano depois, ele finalmente chegou ao topo.

A corrida começou equilibrada

A edição masculina começou sem grandes diferenças entre os principais favoritos.

No posto de Saint-Gervais, após 22,9 quilômetros, Vincent Bouillard, Rod Farvard e Paul Cornut-Chauvinc apareciam na frente, enquanto Dhiman estava apenas seis segundos atrás.

Com o avanço da noite, porém, o americano começou a assumir o controle da prova.

Nas condições adversas, com temperaturas baixas e ventos fortes, Dhiman chegou à liderança na região de La Balme e inicialmente teve Baptiste Chassagne como principal perseguidor.

Na passagem pelo Refuge de la Croix du Bonhomme, a diferença ainda era inferior a um minuto.

O cenário mudaria radicalmente na descida em direção a Les Chapieux.

Ao chegar ao posto de controle por volta dos 52 quilômetros, Dhiman já havia aberto mais de sete minutos sobre Chassagne.

A partir dali, a prova se transformou em uma demonstração de força do americano.

Em Courmayeur, após 81,3 quilômetros, a vantagem já era de 19min25s.

Dhiman amplia vantagem e controla a prova

A chegada do dia não diminuiu o ritmo do líder.

Dhiman continuou aumentando a diferença e alcançou o Grand Col Ferret, ponto mais alto do percurso, a 2.537 metros de altitude, com 22min15s de vantagem.

Na fronteira entre Itália e Suíça, o americano demonstrava segurança e chegou a perguntar à equipe qual era exatamente sua vantagem sobre os adversários.

A resposta veio nas parciais seguintes.

Em La Fouly, a diferença para Chassagne já era de 24min29s. Em Champex-Lac, chegou a 28min12s.

Houve uma pequena reação de Chassagne em Trient, quando o francês reduziu a diferença para 25min53s. Mas Dhiman respondeu imediatamente.

Em Vallorcine, a vantagem voltou a superar os 30 minutos, chegando a 30min47s.

A vitória parecia encaminhada, mas ainda houve um susto. A cerca de 12 quilômetros da chegada, Dhiman tropeçou em uma pedra e caiu.

O americano, porém, rapidamente se levantou e retomou o ritmo.

Pouco depois, passou por La Flégère e iniciou a descida final até Chamonix.

O relógio parou em 18h16min29s.

Uma vitória histórica para um atleta que, apenas um ano antes, havia deixado Chamonix com a frustração do segundo lugar.

Chassagne segura Olson em duelo emocionante

A disputa pelo segundo lugar foi muito mais apertada.

Baptiste Chassagne permaneceu durante grande parte da prova na perseguição a Dhiman e conseguiu sustentar a segunda colocação até o fim.

O francês terminou em 18h47min38s, apenas 31min09s atrás do campeão.

Mas precisou resistir a uma forte reação do americano Caleb Olson nos quilômetros finais.

Olson era quarto em Trient, 3min49s atrás do então terceiro colocado, Joaquin Lopez. A partir dali, iniciou uma impressionante recuperação.

Ultrapassou o equatoriano antes de Vallorcine e passou a perseguir Chassagne.

O americano continuou reduzindo a diferença na descida para Chamonix, mas não houve quilometragem suficiente para completar a ultrapassagem.

Olson terminou em 18h48min24s, apenas 46 segundos atrás de Chassagne.

O resultado garantiu uma dobradinha americana no pódio masculino, com Dhiman em primeiro e Olson em terceiro.

UTMB 2026 — Top 10 masculino

  1. Ben Dhiman (EUA) — 18h16min29s
  2. Baptiste Chassagne (FRA) — 18h47min38s
  3. Caleb Olson (EUA) — 18h48min24s
  4. Virgile Moriset (FRA) — 19h00min23s
  5. Joaquin Lopez (ECU) — 19h06min48s
  6. Hannes Namberger (ALE) — 19h13min51s
  7. Gautier Bonnecarrere (FRA) — 19h23min16s
  8. Antoine Charvolin (FRA) — 19h40min33s
  9. Yannick Noël (FRA) — 19h51min42s
  10. Jean-Philippe Tschumi (SUI) — 19h58min24s

Blandine L’Hirondel quebra a barreira das 22 horas

 

Se a prova masculina terminou com uma marca histórica, a disputa feminina não ficou atrás.

Blandine L’Hirondel conquistou a UTMB 2026 com uma atuação dominante na segunda metade da corrida e tornou-se a primeira mulher da história a completar os 100 miles abaixo das 22 horas.

A francesa cruzou a linha de chegada em 21h54min49s.

A vitória também completou uma trajetória especial dentro do circuito UTMB. Depois de vencer a OCC em 2021 e a CCC em 2022, L’Hirondel tornou-se apenas a segunda mulher a conquistar as três principais provas do evento: OCC, CCC e UTMB.

A única atleta que havia conseguido o feito anteriormente era a neozelandesa Ruth Croft, campeã da UTMB em 2025.

Entre os homens, apenas Xavier Thévenard havia realizado a mesma façanha.

A chegada da francesa em Chamonix foi acompanhada por uma multidão que lotou as ruas da cidade. L’Hirondel, que conciliou durante anos a carreira esportiva com o trabalho na área hospitalar, recebeu uma das maiores celebrações de sua trajetória.

L’Hirondel começa forte

A francesa esteve entre as líderes desde os primeiros quilômetros.

Em Saint-Gervais, após 22,9 quilômetros, L’Hirondel passou em 2h07min01s, apenas 36 segundos à frente da americana Rachel Entrekin.

Lucy Bartholomew, Careth Arnold e Jazmine Lowther também estavam entre as primeiras colocadas.

A tricampeã Courtney Dauwalter, principal nome entre as vencedoras anteriores presentes na largada, vinha mais atrás.

Por volta dos 52 quilômetros, a americana estava aproximadamente nove minutos atrás das líderes.

A situação, porém, se deterioraria rapidamente.

Em Lac Combal, aos 67,8 quilômetros, Dauwalter havia caído para a 12ª posição, 31min29s atrás da liderança. Posteriormente, a americana abandonou a prova.

Mais tarde, porém, retornou ao percurso para apoiar L’Hirondel e outras atletas, em mais um gesto de espírito esportivo.

Com a saída de Dauwalter e a ausência de Ruth Croft, defensora do título, uma nova campeã seria coroada em Chamonix.

O momento decisivo

Na frente, L’Hirondel e Entrekin travavam uma disputa equilibrada.

Em Lac Combal, a francesa tinha apenas oito segundos de vantagem.

A partir daquele ponto, porém, L’Hirondel começou a construir uma vantagem cada vez maior.

Em Courmayeur, aos 81,3 quilômetros, a diferença já era de 4min21s.

No Refuge Bonatti, chegou a 9min08s.

No Grand Col Ferret, a vantagem atingiu 15min33s.

Depois da passagem para a Suíça, a francesa aumentou ainda mais o ritmo.

Em La Fouly, a diferença já chegava a 25min12s. Em Champex-Lac, 36min10s.

Após 144 quilômetros, em Trient, L’Hirondel tinha 38min44s sobre Entrekin.

Em Vallorcine, a margem ultrapassava novamente os 40 minutos.

A vitória estava praticamente assegurada.

Queda tripla aumenta a tensão nos quilômetros finais

A grande vantagem não impediu que os quilômetros finais trouxessem momentos de tensão.

Na subida final para La Flégère, L’Hirondel sofreu três pequenas quedas em um trecho técnico, com raízes e pedras.

Pouco depois, durante a descida, sofreu uma queda mais forte.

A francesa conseguiu se levantar e continuar, mas o episódio teve reflexo imediato na diferença para Entrekin.

Na passagem por La Flégère, aos 166,6 quilômetros, sua vantagem havia caído de 40min09s para 31min06s.

Ainda assim, o título jamais pareceu realmente ameaçado.

L’Hirondel havia construído uma vantagem enorme durante a parte central da corrida e precisava apenas completar a descida até Chamonix.

Quando finalmente cruzou a linha de chegada, o relógio marcava 21h54min49s.

A francesa entrou para a história como a primeira mulher a quebrar a barreira das 22 horas na UTMB.

Assim como no masculino, a marca não pode ser oficialmente considerada recorde do percurso devido às alterações provocadas pelo clima. Ainda assim, é o tempo mais rápido já registrado por uma mulher na história da UTMB.

Entrekin resiste à pressão de Schmitz

A batalha pelo segundo lugar foi uma das mais emocionantes da prova feminina.

Rachel Entrekin ocupou a segunda posição durante praticamente toda a corrida, mas viu sua compatriota Emily Schmitz crescer de forma impressionante na segunda metade.

Em La Fouly, Schmitz estava 16min59s atrás.

A diferença caiu para 9min03s em Champex-Lac, 5min31s em La Giète e apenas 2min42s em Trient.

As duas chegaram a ficar praticamente lado a lado nos postos de abastecimento.

Entrekin, entretanto, conseguiu reagir.

Em Vallorcine, voltou a abrir 3min52s e, em La Flégère, a vantagem chegou a 5min49s.

Schmitz ainda tentou uma última aproximação na descida para Chamonix, mas Entrekin conseguiu segurar a segunda posição.

A americana terminou em 22h15min54s.

Apenas 1min34s depois, Schmitz cruzou a linha de chegada em 22h17min28s.

Depois de mais de 22 horas e aproximadamente 174 quilômetros de corrida, apenas 94 segundos separaram as duas atletas.

UTMB 2026 — Top 10 feminino

  1. Blandine L’Hirondel (FRA) — 21h54min49s
  2. Rachel Entrekin (EUA) — 22h15min54s
  3. Emily Schmitz (EUA) — 22h17min28s
  4. Careth Arnold (EUA) — 23h05min20s
  5. Jazmine Lowther (CAN) — 23h21min55s
  6. Katarzyna Dombrowska (POL) — 23h27min34s
  7. Lucy Bartholomew (AUS) — 23h44min29s
  8. Antonina Iushina (AIN) — 23h49min58s
  9. Anne Cécile Thévenot (FRA) — 24h02min00s
  10. Anne-Sofie Pollestad (NOR) — 24h04min56s

Uma edição para a história

A UTMB 2026 ficará marcada por performances que ultrapassaram a simples disputa pelo pódio.

Ben Dhiman transformou a frustração do vice-campeonato de 2025 em uma vitória esmagadora, estabelecendo a marca de 18h16min29s e tornando-se o segundo homem americano campeão da prova.

Blandine L’Hirondel, por sua vez, completou a coleção das três grandes provas do UTMB Mont-Blanc e estabeleceu uma marca histórica ao ser a primeira mulher abaixo das 22 horas.

Em uma edição marcada por tempestades, mudanças no percurso e condições climáticas severas, os dois campeões protagonizaram performances que certamente estarão entre os momentos mais memoráveis da história recente da UTMB.

Bruno Mattos: Atleta skyrunning, designer e repórter.
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