
Kilian Jornet questiona o futuro do trail running: “Estamos virando a Fórmula 1 das montanhas?”
O catalão Kilian Jornet, um dos maiores nomes da história do trail running, fez uma reflexão profunda sobre o rumo que o esporte está tomando. Em meio à crescente profissionalização das corridas de montanha, Jornet levanta questões sobre a equidade entre os atletas, especialmente no que diz respeito à assistência externa durante as provas. Para ele, é hora de discutir limites mais claros e justos.
Do básico ao ultra profissionalismo
Há uma década, o trail era um esporte simples. Os atletas carregavam o necessário, paravam em poucos pontos de apoio, recebiam água, banana, talvez um chocolate. Se tivessem sorte, um amigo ou familiar aparecia em algum cruzamento para oferecer um lanche ou incentivo.
Hoje, o cenário mudou drasticamente. Jornet relata que em algumas provas, os atletas profissionais chegam aos postos de apoio acompanhados por equipes completas: bebidas já resfriadas, tênis secos, bastões dobrados, coletes prontos com tudo o que será necessário para o próximo trecho — até mesmo piscinas de gelo infláveis já foram vistas. Em contraste, há corredores que seguem sozinhos, com recursos mínimos ou até sem ninguém para entregar a drop bag.
Essa diferença, que antes era um detalhe, se tornou um dos principais fatores de performance nas ultramaratonas modernas. “A diferença no suporte não é mais algo irrelevante. É, na verdade, uma das maiores vantagens competitivas hoje em dia”, aponta Kilian.
O trail como esporte… ou espetáculo?
Jornet questiona se o esporte está perdendo sua essência. “Queremos um futuro em que os atletas tenham carros de apoio os seguindo, estratégias de troca de equipamentos e sistemas de refrigeração como fator decisivo? Ou ainda vemos o trail como uma jornada de exploração pessoal e certa autossuficiência diante da natureza?”, reflete.
Para ele, o trail é, ou deveria ser, um ambiente onde profissionais e amadores compartilham o mesmo percurso, as mesmas montanhas, o mesmo sol, os mesmos postos de abastecimento e a mesma chance de dar o melhor de si. Ele não defende o fim da assistência externa, mas acredita que são necessários limites claros para preservar a equidade, especialmente nas provas de alto nível.
Exemplos e contrastes
Jornet cita dois exemplos distintos de abordagem em uma prova de ultra trail. Um atleta chega a cada ponto de apoio com uma equipe bem coordenada, otimizando tempo e recursos. Outro improvisa tudo sozinho, sem estrutura. Ambos estão dentro do regulamento, mas é justo? “A pergunta é: isso é justo? E mais importante: é esse o caminho que queremos para o nosso esporte?”
Eventos como a Western States permitem esse nível de apoio total. Já o UTMB implementa regras específicas para limitar onde e como a assistência pode ocorrer — uma tentativa de nivelar o campo de jogo. Jornet acredita que esse é um passo necessário.
Impacto além da competição
Segundo o catalão, essa diferença de estrutura também afeta o acesso ao esporte. Quanto mais normalizamos equipes robustas, maiores são as barreiras de entrada. “Isso desencoraja a ideia de que resistência é sobre resiliência, não sobre recursos financeiros.”
Ele reconhece que, como atleta de elite, também participa desse “jogo” — tentando otimizar sua performance dentro do que é permitido. Mas alerta: “Se as regras continuarem abertas, a distância entre quem tem apoio e quem não tem só vai crescer. E aí, será muito mais difícil voltar a um modelo mais justo.”
Um olhar para o futuro
Jornet conclui sua reflexão com uma pergunta: “Como será o trail running em 10 anos? Um esporte onde para competir será preciso ter grandes orçamentos, equipes numerosas e o atleta só precisa correr? Ou um esporte onde todos têm as mesmas oportunidades e onde a gestão humana diante dos desafios naturais ainda faz parte do percurso?”
A resposta de Kilian é clara: “Eu sempre escolherei a segunda opção.”
