
Sierre-Zinal: a Catedral do Trail Running recebe mais um capítulo histórico da Golden Trail World Series
Poucos dias após a disputa da Salomon Pitz Alpine Glacier Trail, na Áustria, a elite mundial do trail running atravessa a fronteira rumo à Suíça para um dos momentos mais aguardados da temporada: a Sierre-Zinal, quinta etapa da Golden Trail World Series (GTWS), que acontece neste sábado, 8 de agosto.
Presente no calendário da série desde a criação do circuito, a tradicional prova suíça é uma das corridas mais importantes da história do esporte. Com 31 quilômetros de distância e 2.200 metros de ganho de elevação, o percurso combina velocidade, resistência e montanha em uma das rotas mais seletivas e admiradas do cenário internacional, motivo pelo qual recebeu o apelido de “A Catedral do Trail Running”.
A edição deste ano reúne novamente alguns dos maiores nomes da modalidade. Os atuais campeões da prova, Philemon Kiriago (Run2Gether On Trail) e Caroline Kimutai (Salomon), chegam à Suíça buscando defender seus títulos conquistados em 2025.
Mas a missão não será simples. Entre os principais desafios estão os atuais líderes da Golden Trail World Series e campeões da temporada passada, Elhousine Elazzaoui (NNormal) e Madalina Florea (Scott), além de um grupo formado por vencedores anteriores da competição e atletas que buscam uma das conquistas mais cobiçadas do trail running mundial.
Sierre-Zinal: uma história construída nas montanhas
A história da Sierre-Zinal começou em 1974, quando o matemático suíço Jean-Claude Pont idealizou uma rota que conectava as cidades de Sierre e Zinal por antigas trilhas utilizadas pelos pastores durante os movimentos de transumância.
Mais de 50 anos depois, aqueles caminhos se transformaram em um dos percursos mais emblemáticos do trail running mundial. A prova carrega uma combinação rara: tradição, alto nível competitivo e uma atmosfera única criada pelos milhares de espectadores que acompanham os atletas ao longo das montanhas suíças.
A largada acontece em Sierre, a apenas 560 metros de altitude, mas a dificuldade aparece logo nos primeiros quilômetros. A primeira parte da prova concentra grande parte do desafio, com os atletas enfrentando mais de 1.420 metros de subida acumulada nos 11 quilômetros iniciais.
É justamente nesse trecho que acontece o primeiro segmento especial da GTWS: o uphill segment, uma subida de 1,2 km com inclinação média de 20,9%. Os cinco atletas mais rápidos recebem pontuação extra para o ranking da temporada: 10, 8, 6, 4 e 2 pontos, respectivamente.
Depois do primeiro grande teste, o percurso entra em uma das regiões mais impressionantes dos Alpes suíços: o Vale de Anniviers. Mesmo após superar boa parte da altimetria positiva, a corrida continua subindo gradualmente até Nava, ponto mais alto do trajeto, localizado a 2.424 metros de altitude.
É nesse cenário de alta montanha que muitas disputas começam a ser definidas, com pequenas diferenças entre os favoritos podendo se transformar em grandes vantagens na classificação final.
A corrida dos cinco gigantes de 4 mil metros
Ao longo do percurso, os corredores passam por alguns dos lugares mais icônicos da região, como Ponchette, Chandolin e o histórico Hotel Weisshorn.
O cenário é marcado pela presença de cinco grandes montanhas com mais de 4.000 metros de altitude, responsáveis pelo famoso apelido da prova: a “Corrida dos Cinco 4.000”.
São elas:
- Weisshorn – 4.506 metros
- Zinalrothorn – 4.221 metros
- Obergabelhorn – 4.063 metros
- Matterhorn – 4.478 metros
- Dent Blanche – 4.357 metros
É também nessa região, aproximadamente na metade da prova, que acontece o segmento de sprint da GTWS, com 1,7 km de extensão e leve descida de -0,7%.
A partir de Nava começa outro capítulo decisivo da Sierre-Zinal: uma descida rápida e técnica até a chegada em Zinal, localizada a 1.675 metros de altitude.
Foi nesse trecho final que aconteceu uma das chegadas mais marcantes da história recente da prova, quando Kilian Jornet e Philemon Kiriago protagonizaram um duelo inesquecível em 2024.
Não por acaso, o segmento de descida da GTWS está localizado justamente nessa parte explosiva do percurso: são 1,1 km com inclinação média de -24,2%, apenas 2,6 quilômetros antes da chegada, onde cada segundo pode decidir a vitória.
Sierre-Zinal: onde campeões escrevem seus nomes na história
Desde sua primeira edição, a Sierre-Zinal permanece praticamente inalterada, acompanhando a evolução do trail running e a transformação dos padrões de desempenho da modalidade.
O percurso suíço já foi palco de algumas das maiores performances da história do esporte. Atualmente, os recordes pertencem a dois grandes nomes do trail mundial.
No masculino, o melhor tempo é de Kilian Jornet, considerado uma das maiores referências da história do mountain running. O espanhol, que soma dez vitórias na Sierre-Zinal, estabeleceu o recorde da prova com 2h25min34s.
Entre as mulheres, a marca histórica pertence à suíça Maude Mathys (Asics), uma das atletas mais dominantes da última década. Quatro vezes campeã da corrida, Mathys registrou o recorde feminino com 2h49min20s.
Mais do que uma simples vitória, triunfar na Sierre-Zinal representa um marco na carreira de qualquer atleta. A prova é considerada uma das mais prestigiadas do calendário internacional e todos os anos reúne os melhores corredores de montanha do mundo, além de atletas vindos de outras modalidades de resistência.
A corrida que todos querem vencer
Entre os principais favoritos desta edição estão justamente os atuais campeões da prova: Philemon Kiriago e Caroline Kimutai.
Poucos atletas conhecem tão bem o caminho até a vitória na “Catedral do Trail Running” quanto Kiriago. O queniano venceu a competição em 2023 e 2025, além de ter terminado apenas um segundo atrás do campeão em 2024, em uma das chegadas mais emocionantes da história recente da corrida.
Do lado feminino, Caroline Kimutai chega novamente como uma das grandes protagonistas. A queniana conquistou sua primeira vitória na Sierre-Zinal em 2025 e retorna buscando defender o título e conquistar sua segunda vitória na temporada da GTWS, depois do triunfo na Ledro Sky Trentino, na Itália.
Mas os campeões terão pela frente adversários de enorme qualidade.
Os atuais vencedores da Golden Trail World Series, Elhousine Elazzaoui e Madalina Florea, chegam embalados após dominarem a etapa austríaca da Salomon Pitz Alpine Glacier Trail.
Apesar do excelente momento, a Sierre-Zinal é uma das poucas provas do calendário em que ambos ainda buscam encontrar sua melhor performance.
Elite masculina reúne campeões e candidatos ao pódio
A disputa masculina terá novamente praticamente todo o pódio da edição de 2025 reunido.
Além de Kiriago, a equipe Run2Gether On Trail chega forte com seus companheiros quenianos Patrick Kipngeno e Michael Saoli, ambos buscando desafiar o compatriota e colocar seus nomes na lista de campeões da tradicional prova suíça.
O grupo de candidatos também conta com alguns dos principais atletas do cenário internacional.
Entre eles está Adrien Briffod (Asics), triatleta olímpico que surpreendeu em 2025 ao liderar boa parte da prova antes de terminar na quarta colocação.
Também estarão na disputa:
- Andreu Blanes (Salomon) – campeão da Sierre-Zinal em 2022;
- Martin Nilsson – sexto colocado na edição passada;
- Brayan Rodríguez;
- Christian Allen (Nike ACG);
- Daniel Pattis (Brooks) – vice-campeão da Zegama-Aizkorri nesta temporada;
- Taylor Stack – terceiro colocado na tradicional prova basca.
Com um percurso rápido, técnico e estratégico, a disputa masculina promete ser decidida nos detalhes, especialmente nas longas subidas iniciais e na descida explosiva até Zinal.
Disputa feminina coloca grandes estrelas frente a frente
Na prova feminina, todos os olhares estarão voltados para Maude Mathys.
A suíça chega novamente como uma das principais ameaças às atuais campeãs. Dona do recorde da Sierre-Zinal e uma das corredoras mais dominantes do trail running mundial na última década, Mathys conhece como poucas atletas todos os detalhes do percurso.
Ela terá pela frente a líder da GTWS, Madalina Florea, e a atual campeã Caroline Kimutai, em uma disputa que reúne diferentes estilos de corrida e gera grande expectativa.
O pelotão feminino ainda conta com outras atletas de destaque internacional:
- Oria Liaci (Brooks) – quarta colocada na Sierre-Zinal de 2025 e medalhista mundial;
- Laura Hottenrott – medalhista de prata no Campeonato Europeu de Uphill de 2026;
- Miao Yao (Nike ACG) – uma das grandes revelações chinesas da modalidade;
- Sara Alonso (Asics) – vencedora de três provas da GTWS: Marathon du Mont-Blanc, Kobe Trail e Zegama-Aizkorri;
- Anna Gibson (Brooks);
- Ruth Gitonga (Run2Gether On Trail) – segunda colocada na Pitz Alpine;
- Nienke Brinkman (Nike ACG) – vice-campeã da Sierre-Zinal em 2021, quando ficou muito próxima da vitória.
A lista de estrelas ainda ganha um nome especial: Jessie Diggins, uma das maiores atletas da história do esqui cross-country.
A norte-americana chega à Sierre-Zinal com um currículo impressionante: seis títulos gerais da Copa do Mundo, 18 vitórias individuais em etapas da Copa do Mundo e quatro medalhas olímpicas, sendo uma de ouro, uma de prata e duas de bronze.
Sierre-Zinal: uma celebração mundial do trail running
A Sierre-Zinal vai muito além da disputa entre os melhores atletas do planeta. Enquanto a elite luta por pontos na Golden Trail World Series e por um lugar na história da modalidade, milhares de corredores amadores também fazem parte da identidade da prova.
Neste ano, mais de 6 mil participantes estarão presentes na tradicional categoria “Tourist”, uma prova não competitiva e sem cronometragem oficial, criada para que corredores de diferentes níveis possam vivenciar o percurso no próprio ritmo.
Os participantes dessa categoria largam entre 4h45 e 6h15 da manhã, enfrentando os mesmos 31 quilômetros pelas montanhas suíças, mas com um objetivo diferente: aproveitar a experiência, os cenários dos Alpes e a atmosfera única construída ao longo de décadas.
Com corredores representando aproximadamente 70 nacionalidades, a Sierre-Zinal reforça seu caráter internacional e ajuda a explicar por que a prova também ganhou o apelido de “Maratona de Nova York do trail running”.
Mais do que uma competição, o evento se transformou em uma grande celebração da modalidade, reunindo atletas profissionais, corredores amadores e apaixonados pela montanha em um dos percursos mais emblemáticos do mundo.
Como acompanhar a Sierre-Zinal
A quinta etapa da Golden Trail World Series 2026 terá acompanhamento internacional pelos canais oficiais da competição.
No Brasil, os fãs poderão acompanhar as informações em tempo real pelas plataformas oficiais da Golden Trail World Series, além dos conteúdos e melhores momentos publicados após a prova no canal oficial da GTWS no YouTube.
A largada feminina acontece às 5h30 (horário de Brasília), enquanto a prova masculina começa às 6h00.
Além da cobertura ao vivo, a organização disponibilizará atualizações em tempo real pelo sistema de live timing no site oficial da série e pelas redes sociais da Golden Trail World Series.
Durante a semana seguinte ao evento, também será divulgado um programa especial com os principais momentos da corrida, reunindo os melhores ataques, disputas e imagens da histórica prova suíça.
Kinomap leva a Sierre-Zinal para corredores do mundo inteiro
A experiência da Sierre-Zinal também poderá ser vivenciada por atletas que não estarão presentes nos Alpes suíços.
Após se tornar patrocinadora oficial da Golden Trail World Series, a plataforma interativa de treinamento Kinomap disponibilizou parte do percurso da prova para seus usuários.
Especializada em experiências virtuais para corrida, ciclismo e remo, a plataforma utiliza vídeos sincronizados com localização geográfica para aproximar corredores de alguns dos percursos mais famosos do mundo.
Com isso, atletas e fãs poderão treinar virtualmente em trechos da lendária Sierre-Zinal, conhecendo as características do trajeto e experimentando, mesmo à distância, um dos maiores desafios do calendário internacional do trail running.
Sierre-Zinal: uma prova que atravessa gerações
Mais de cinco décadas após sua criação, a Sierre-Zinal continua representando aquilo que o trail running tem de mais especial: competição de alto nível, conexão com a natureza, história e uma comunidade apaixonada pela montanha.
Em um calendário cada vez mais globalizado, poucas corridas conseguem unir tantos elementos como a tradicional prova suíça. O cenário dos Alpes, a presença dos maiores atletas do mundo e a participação de milhares de corredores fazem da Sierre-Zinal um evento único.
Neste sábado, a “Catedral do Trail Running” abrirá novamente suas portas para mais um capítulo da história da modalidade.
E, como acontece há mais de 50 anos, novos nomes terão a oportunidade de deixar suas marcas em uma das montanhas mais lendárias do esporte.
