Revista Trail Running

UTMB World Series

Chuva e lama transformam a Paraty Brazil by UTMB em um teste ainda mais duro na Serra da Bocaina

Com mais de 3.700 atletas de 39 países, edição de 2026 levou a Mata Atlântica a um dos finais de semana mais desafiadores da história da prova, com trilhas molhadas, lama e disputas apertadas nas seis distâncias

Bruno Peixoto Mattos · 20 de setembro de 2026 · 10 min de leitura
Conrado Reis


Paraty foi palco, entre os dias 17 e 20 de setembro, de uma edição da Paraty Brazil by UTMB marcada não apenas pela presença de atletas de diferentes partes do mundo, mas também por uma adversidade que mudou completamente a característica das trilhas: a chuva.

Depois de edições anteriores marcadas por calor e alta umidade, o cenário de 2026 foi diferente. As chuvas registradas na região deixaram o terreno mais pesado e transformaram trechos de trilha em áreas de lama, aumentando a dificuldade técnica de uma competição que já tem entre suas principais características o relevo acidentado da Serra da Bocaina e os terrenos da Mata Atlântica. A própria organização havia antecipado, antes do evento, que as condições climáticas poderiam provocar uma presença maior de lama nos percursos.

O resultado foi uma edição em que, para muitos atletas, administrar o terreno passou a ser tão importante quanto controlar ritmo, alimentação e esforço. A lama apareceu como um dos elementos mais comentados do fim de semana e modificou especialmente os trechos técnicos, tornando descidas e áreas de maior inclinação ainda mais exigentes.

Ao todo, a edição reuniu mais de 3.700 atletas de 39 países, distribuídos em seis provas. A programação começou na quinta-feira e terminou no domingo, com a arena instalada no Centro Histórico de Paraty, onde estavam concentradas a Expo, as largadas e as chegadas das principais distâncias.

A principal disputa do evento foi a PTR 108, que largou na noite de sexta-feira. Foram 108 quilômetros e aproximadamente 4.850 metros de ganho de elevação, em uma jornada que atravessou a noite e levou os atletas por diferentes ambientes da região. O percurso combinou montanha, Mata Atlântica e referências históricas de Paraty, incluindo a região da Pedra da Macela e trechos relacionados ao Caminho do Ouro.

Com a chuva, a prova ganhou uma dificuldade adicional. Em uma ultramaratona que já exige muitas horas de esforço, enfrentar trechos enlameados significa correr, caminhar e descer em um terreno muito mais instável. O atleta precisa adaptar a passada, controlar a velocidade e preservar energia para os quilômetros finais. Para quem passou pela madrugada, o desafio foi ainda maior, com a combinação entre escuridão, fadiga e terreno molhado.

No masculino, a vitória foi de Rogério Silvestrin, em uma das chegadas mais apertadas da edição. O brasileiro completou os 108 quilômetros em 12h43min38s, apenas 38 segundos à frente de Rodrigo Machado Oliveira, que terminou em 12h44min16s. Paulo Galvão ficou com a terceira colocação, em 13h20min53s.

A diferença entre Rogério e Rodrigo chama atenção porque foi construída depois de mais de 12 horas de competição. Os dois chegaram praticamente juntos ao Centro Histórico, transformando os últimos metros da PTR 108 em uma disputa direta pela vitória.

Entre as mulheres, Juliana Stolarski Uavnizack venceu a distância principal em 15h55min53s. Mariana Scarpelli terminou na segunda posição, com 16h38min38s, enquanto Lilian Schiffer completou o pódio em 17h41min58s.

A vitória de Juliana foi construída em um percurso que exigiu resistência durante boa parte do dia, enquanto a segunda colocada chegou pouco mais de 42 minutos depois. A PTR 108 feminina também mostrou como as condições de terreno ampliaram o componente técnico de uma prova que, por natureza, já está entre os maiores desafios do calendário brasileiro.

A PTR 108 faz parte da categoria de 100K da UTMB World Series e oferece três Running Stones, além de classificação para a final de 100K do circuito. De acordo com o regulamento de 2026, os três primeiros homens e as três primeiras mulheres da prova de 100K garantem vaga direta na CCC 2027, sem necessidade de participar de loteria, embora ainda precisem pagar a inscrição.

Mas a programação de Paraty não se resumiu à ultramaratona principal.

Na madrugada de sábado, às 5h, os corredores da PTR 58 largaram para 58 quilômetros e cerca de 3.400 metros de ganho de elevação. A prova manteve a característica técnica do evento, mas, diferentemente da PTR 108, teve a maior parte de seu desenvolvimento durante o dia.

O brasileiro Ayslan Miragaia foi o vencedor masculino, com 6h35min04s. O argentino Ezequiel Alexis Pauluzak terminou em segundo, com 6h43min22s, e seu compatriota Marcelo Del Collado ficou em terceiro, com 6h48min53s.

No feminino, a vitória foi internacional. A francesa Sophie Bouquet Cardinael completou a prova em 7h59min46s, seguida pela romena Oana Mihalcea, em 8h14min54s, e pela argentina María Belén Sanchez Ruiz, em 8h28min16s.

A presença estrangeira apareceu em diferentes pódios ao longo do fim de semana e ajudou a reforçar a dimensão internacional da Paraty Brazil by UTMB. França, Romênia, Argentina, Chile e Uruguai estiveram representados entre os primeiros colocados das provas.

Pouco depois da largada da PTR 58, foi a vez da PTR 34, com 34 quilômetros e aproximadamente 1.150 metros de elevação positiva. A vitória masculina ficou com Cleber Maraga, que completou a prova em 2h44min57s. Cristiano José Tedeski foi segundo, com 2h48min24s, e Rudney André da Silva terminou em terceiro, com 2h49min42s.

No feminino, a chilena Antonia Sánchez Lagos foi a primeira colocada, em 3h18min37s. A uruguaia Sofia Samudio ficou em segundo, com 3h31min58s, e Sthéfanny Reus Borges terminou em terceiro, com 3h36min21s.

A PTR 25, com 25 quilômetros e 750 metros de ganho de elevação, também teve uma disputa bastante equilibrada no masculino. Jefferson Lopes do Nascimento venceu em 2h03min42s, apenas 32 segundos à frente de Eduardo de Brito Ramos Cavalo, segundo colocado em 2h04min14s. Lucas da Silva completou o pódio em 2h06min56s.

Entre as mulheres, Iris Nascimento venceu em 2h35min03s, seguida por Bianca Ferreira, com 2h36min48s, e Crislaine Rocha, com 2h37min59s.

A edição de 2026 também marcou a estreia da PTR 17, uma das novidades da programação. Com largada na Fazenda Bananal e chegada no Centro Histórico, a prova teve 17 quilômetros e aproximadamente 700 metros de ganho de elevação segundo o FAQ da organização.

No masculino, Helio Neto foi o vencedor, com 1h17min35s. Lucas Ferreira terminou em segundo, com 1h19min32s, apenas sete segundos à frente de Lucas Molina Ferreira, terceiro colocado em 1h19min39s.

No feminino, Sandra Martins Bezerra venceu em 1h43min45s, seguida por Evelin Fernandes, em 1h46min18s, e Larissa de Oliveira, em 1h48min38s.

Depois de quatro dias de programação, a edição esportiva terminou no domingo com a RUN 7, distância de sete quilômetros e apenas 50 metros de ganho de elevação. A prova levou a competição para uma proposta mais acessível e encerrou a sequência de disputas do evento.

Joezer Santos foi o campeão masculino, com 26min44s, enquanto Thiago Martins da Silva terminou em segundo, apenas 13 segundos atrás. Elton Freitas ficou em terceiro, com 28min08s.

No feminino, Giovanna Martins venceu com 28min15s. Gabriela Vergilio foi segunda, em 30min32s, e Danielle Araujo terminou em terceiro, com 32min08s.

Uma Paraty diferente


A chuva acabou dando à edição de 2026 uma identidade própria. A organização já havia destacado antes da largada que os anos anteriores haviam apresentado temperaturas elevadas e alta umidade, enquanto as condições de 2026 apontavam para uma prova mais fresca e com maior presença de lama.

Na prática, foi exatamente esse contraste que marcou o fim de semana. A paisagem exuberante da Mata Atlântica permaneceu como um dos grandes atrativos do evento, mas o terreno passou a exigir uma relação diferente do atleta com a montanha.

A lama não foi apenas um detalhe visual. Em uma prova de trail running, ela altera a aderência, modifica a velocidade e exige mais controle nos trechos de descida. Nas distâncias mais longas, o impacto se acumula ao longo de muitas horas e pode transformar completamente a estratégia de uma corrida.

Isso ficou especialmente evidente na PTR 108, em que os atletas enfrentaram uma noite inteira de competição antes de retornar a Paraty. A combinação entre 108 quilômetros, 4.850 metros de subida, terreno molhado e longas horas de esforço fez da prova principal um dos grandes testes de resistência do calendário brasileiro.

Ao mesmo tempo, a Paraty Brazil by UTMB mostrou novamente sua capacidade de reunir diferentes perfis de corredores. Havia atletas disputando posições na elite internacional, corredores buscando pontos e Running Stones dentro do circuito UTMB World Series e participantes encarando distâncias menores em busca da experiência de correr em uma das regiões mais emblemáticas do trail nacional.

A organização também manteve ações relacionadas à preservação ambiental e ao relacionamento com o território. Segundo o diretor-geral do evento, Rafael Miranda, a organização trabalhou com o ICMBio na sinalização das trilhas e previa uma operação de limpeza dos percursos após as provas, com participação de atletas voluntários. A programação também incluiu uma corrida infantil com cerca de 450 crianças.

No fim, a edição 2026 deixou uma imagem diferente das anteriores. Em vez do calor intenso que havia caracterizado os primeiros anos, Paraty recebeu os atletas com chuva, terreno pesado e muita lama. Para quem estava na trilha, isso significou uma dificuldade extra. Para o evento, acabou criando mais um capítulo na história de uma prova que vem construindo sua identidade justamente a partir da combinação entre montanha, floresta, história e os elementos imprevisíveis da natureza.

Em quatro dias, mais de 3.700 corredores de 39 países passaram por Paraty. Entre eles, alguns chegaram ao Centro Histórico buscando pódios e vagas internacionais; outros chegaram apenas querendo completar a distância escolhida. Todos, porém, encontraram uma versão mais molhada, técnica e exigente da Serra da Bocaina.

E, em uma prova de montanha, talvez seja justamente essa a parte que permanece depois que o relógio para: a lembrança de como estava a trilha quando foi preciso atravessá-la.


PTR 108 — 108 km | 4.850 m+

Masculino

  1. Rogério Silvestrin — 12h43min38s — Go On Outdoor Mombora

  2. Rodrigo Machado Oliveira — 12h44min16s — Go On Outdoor

  3. Paulo Galvão — 13h20min53s — Go On Outdoor

Feminino

  1. Juliana Stolarski Uavnizack — 15h55min53s — Life Runners

  2. Mariana Scarpelli — 16h38min38s — Mombora/NNormal

  3. Lilian Schiffer — 17h41min58s — Persolayne

PTR 58 — 58 km | 3.400 m+

Masculino

  1. Ayslan Miragaia — 6h35min04s — Águia Team

  2. Ezequiel Alexis Pauluzak — 6h43min22s — Pauluzak Trail Running Team

  3. Marcelo Del Collado — 6h48min53s — Asics Trail Argentina

Feminino

  1. Sophie Bouquet Cardinael — 7h59min46s — VEJA

  2. Oana Mihalcea — 8h14min54s

  3. María Belén Sanchez Ruiz — 8h28min16s — Altiva Pro

PTR 34 — 34 km | 1.150 m+

Masculino

  1. Cleber Maraga — 2h44min57s — UPFITRAIL

  2. Cristiano José Tedeski — 2h48min24s — Life Runners Brasil

  3. Rudney André da Silva — 2h49min42s

Feminino

  1. Antonia Sánchez Lagos — 3h18min37s — Trimps

  2. Sofia Samudio — 3h31min58s — Cuesta Arriba Run

  3. Sthéfanny Reus Borges — 3h36min21s — ANR/Adidas

PTR 25 — 25 km | 750 m+

Masculino

  1. Jefferson Lopes do Nascimento — 2h03min42s — Liga da Justiça

  2. Eduardo de Brito Ramos Cavalo — 2h04min14s — ACB Amauri Holanda

  3. Lucas da Silva — 2h06min56s — Life Runners

Feminino

  1. Iris Nascimento — 2h35min03s — ACB Amauri Holanda

  2. Bianca Ferreira — 2h36min48s — TrioRunning

  3. Crislaine Rocha — 2h37min59s — Aloha Running

PTR 17 — 17 km | aproximadamente 700 m+

Masculino

  1. Helio Neto — 1h17min35s — Runlastic

  2. Lucas Ferreira — 1h19min32s — Team Mahira Braga / Atleta Campo Base e Atleta Campos do Jordão

  3. Lucas Molina Ferreira — 1h19min39s — Lebre / Fundusp

Feminino

  1. Sandra Martins Bezerra — 1h43min45s — The North Face

  2. Evelin Fernandes — 1h46min18s — Akva/Furias da Serra

  3. Larissa de Oliveira — 1h48min38s — ACB Amauri Holanda

RUN 7 — 7 km | 50 m+

Masculino

  1. Joezer Santos — 26min44s

  2. Thiago Martins da Silva — 26min57s — Tem Shakor Racim

  3. Elton Freitas — 28min08s — Liga da Justiça

Feminino

  1. Giovanna Martins — 28min15s — Giovanna Martins Assessoria Esportiva

  2. Gabriela Vergilio — 30min32s — Irion Multsports

  3. Danielle Araujo — 32min08s — Aloha


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