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922 e 800: as maiores notas da história do INCM e a régua que muda o jogo para as mulheres

Cristiano José Tedeski e Izabela Tiago Germano cravaram os recordes do índice na Indomit Pedra do Baú. E mostram por que, no INCM, a performance feminina vai aonde o ITRA e o UTMB Index praticamente não deixam.

Valmir Lana · 13 de outubro de 2026 · 4 min de leitura

Todo índice de performance tem uma pergunta escondida: comparado com quem? No INCM, a resposta é simples e muda tudo. Cada atleta é medido contra o recorde mundial do próprio sexo. E foi com essa régua que a base chegou, em 2026, às duas maiores notas da sua história: 922 no masculino e 800 no feminino.

As duas saíram da mesma prova, no mesmo dia: a Indomit Pedra do Baú 35 km, em São Bento do Sapucaí (SP), em 28 de março. São 35 km com 1.868 m de subida, num percurso validado por GPX e com terreno classificado. Ou seja: nada de nota inflada por percurso fácil.

922: Cristiano José Tedeski

Cristiano José Tedeski venceu os 35 km em 2h54min23s e cravou 922 pontos, a maior nota já registrada no índice. Para ter ideia do nível, a prova teve três homens acima de 870: Laurindo Nunes Neto (898) e Ayslan Miragaia (871) completaram o pódio. Em toda a base, que hoje soma 17.491 resultados de 86 provas, só 19 resultados masculinos passaram dos 800 pontos.

Tedeski também aparece no índice com 754 nos 34 km do Paraty Brazil by UTMB e 635 nos 35 km da La Misión Brasil.

800: Izabela Tiago Germano

No feminino, Izabela Tiago Germano venceu em 3h44min52s e marcou 800 pontos. É o único resultado feminino na casa dos 800 em toda a base do INCM. Logo atrás vieram Lara Vieira Constâncio Mota (779) e Ewelin Cristina Ribeiro de Mello (753), também com algumas das melhores notas femininas já registradas.

Izabela tem ainda 635 nos 27 km do Cambotas Trail Fest e 510 no PTR 58 do Paraty Brazil by UTMB.

Como o INCM chega nesses números

A conta é direta: índice = 1000 × tempo de referência × FAI ÷ tempo do atleta.

  • Tempo de referência: sai dos recordes mundiais vigentes, do 5 km às 100 milhas, convertidos para a distância equivalente da prova (quilômetros mais subida).
  • FAI: o fator de ajuste do percurso, que considera tecnicidade, severidade das descidas e altitude, medido no GPX. Na Pedra do Baú 35 km, o FAI é 1,105.
  • O detalhe que importa: homens são medidos pelo recorde masculino; mulheres, pelo feminino.

Na prática, 1000 pontos significa correr no nível do recorde mundial. De cada uma e de cada um.

Por que no ITRA e no UTMB Index é diferente

Os dois índices mais conhecidos do trail usam uma régua única. O ITRA informa que aplica o mesmo cálculo para homens e mulheres, justamente para permitir comparar as performances diretamente, como se compara tempo de chegada. O UTMB Index segue a mesma lógica.

A consequência é previsível: como a diferença fisiológica entre os recordes masculino e feminino fica, em geral, entre 7% e 12%, as notas femininas vivem numa faixa mais baixa da escala. O próprio ITRA reconhece isso na sua tabela de níveis: a elite masculina começa acima de 825 pontos; a feminina, acima de 700. No UTMB World Series, a nota mínima por resultado para a final 50K é de 830 para homens e 680 para mulheres.

Fizemos o teste com a base do INCM. Medindo os 3h44min52s da Izabela pela referência masculina da mesma prova, a nota cairia de 800 para 715. Ela não correu pior. A régua é que é outra.

O teto invisível

Dá para levar o raciocínio ao limite. Se uma mulher igualasse o recorde mundial feminino na Pedra do Baú 35 km, numa régua única ela marcaria cerca de 894 pontos. Dependendo da distância, esse teto varia entre 881 e 930. Ou seja: numa escala comum, nem a melhor performance feminina possível chega a 1000. Notas na casa dos 900 e 1000, que no ITRA e no UTMB Index são praticamente inalcançáveis para uma mulher, no INCM estão dentro da escala.

Isso não torna um sistema certo e o outro errado. São perguntas diferentes. A régua única responde "quem foi mais rápido no absoluto". O INCM responde "quão perto do limite humano do seu sexo você chegou". Para um ranking que quer valorizar a corrida de montanha brasileira como um todo, a segunda pergunta conta uma história mais justa.

E agora?

Os 922 e 800 da Pedra do Baú viraram a marca a ser batida. Com o calendário de 2026 ainda em andamento, ainda há prova pela frente para alguém mexer nesses números.

O ranking completo, os perfis de atleta e todas as provas indexadas estão no INCM, aqui no site da Revista Trail Running.

Dados: base INCM, consulta de 13/10/2026, metodologia 2.0.