O maior legado do trail brasileiro da história
Dos raids e do mountain bike ao pódio do Tor des Géants. Aos 47 anos, Manu Vilaseca vive uma das fases mais fortes de uma carreira que já passou pelo UTMB, TDS, Everest, Saara, Cocodona e pela conquista da Triple Crown of 200s.
Manuela Vilaseca chegou a Courmayeur depois de 82 horas, 31 minutos e 56 segundos de prova.
Terceira mulher no Tor des Géants, 21ª colocada geral.
A organização fala em aproximadamente 330 quilômetros. O relógio de Manu marcou 362 km. Foram mais de 25 mil metros de subida, outros 25 mil de descida e 25 passos de montanha pelos Alpes italianos.
Ela fez tudo isso sem equipe de apoio, aos 47 anos.
O resultado já seria suficiente para colocar seu nome novamente entre os grandes destaques brasileiros do trail internacional. O que dá outra dimensão a esse pódio é olhar o caminho percorrido até ele.
Manu já competia em endurance antes de o trail running brasileiro assumir a forma que conhecemos hoje. Passou pelas corridas de aventura, pelo mountain bike, pelo XTERRA, venceu ultramaratonas na América do Sul, chegou duas vezes ao Top 10 do UTMB, foi Top 5 na TDS, correu no Himalaia e no Saara, venceu 100 milhas nos Estados Unidos e, depois dos 40 anos, encontrou nas provas acima de 200 milhas uma nova fase da carreira.
Em 2025, conquistou a Triple Crown of 200s e estabeleceu um novo recorde feminino no desafio.
Em 2026, voltou aos Alpes para terminar um trabalho que havia ficado incompleto dois anos antes.
Essa sequência ajuda a explicar por que a história de Manu ocupa um lugar tão particular no trail brasileiro.
Não é uma carreira construída em uma temporada, são décadas.
O TOR: 362 QUILÔMETROS NO RELÓGIO E UM PÓDIO NOS ALPES
O Tor des Géants é uma prova difícil até dentro dos padrões do ultra endurance.
A corrida atravessa o Vale de Aosta, na Itália, passando sucessivamente por vales e grandes passos alpinos. O terreno técnico se soma à altitude, às descidas longas, às noites praticamente sem dormir e ao desgaste provocado por vários dias consecutivos de prova.
Manu vinha de grandes resultados nas ultras norte-americanas, mas encontrou um desafio diferente.
“O TOR des Geants é a prova, ou das provas mais difíceis que já fiz. Dizem que são 330 km, mas nenhum GPS marca menos de 350. O meu marcou 362 km. São 25 passes de montanha e mais de 25 mil metros positivos, mais 25 mil negativos.”
A diferença em relação às 200 milhas americanas era clara.
“É uma prova técnica e de alta montanha, características totalmente diferentes das que tinha feito nos Estados Unidos.”
Nos Estados Unidos, ela já havia provado sua capacidade de permanecer competitiva depois de 50, 60 ou 70 horas de corrida.
No TOR, precisou levar essa resistência para um ambiente onde técnica e montanha têm peso muito maior.
Correr cansada não basta.
É preciso continuar descendo bem, movimentar-se em terreno irregular, atravessar passos de montanha e manter atenção depois de duas ou três noites praticamente sem dormir.
E Manu fez isso sozinha, sem assistência própria, sem alguém acompanhando seus passos ao longo da prova.
O terceiro lugar ganhou um significado especial.
“O pódio nessa prova tem um valor imensurável para mim, principalmente pelo meu tempo na prova e o nível competitivo feminino desse ano.”
DO DNF AO PÓDIO
Existe um resultado anterior que ajuda a entender essa chegada.
Em 2024, Manu também largou no Tor des Géants, chegou ao quilômetro 260 e parou, DNF.
Ela não voltou em 2026 apenas com a experiência acumulada de outras provas. Voltou conhecendo o TOR.
O abandono de 2024 permitiu que entendesse boa parte do percurso em condições reais de corrida. Durante o verão europeu de 2026, completou essa preparação de uma maneira pouco convencional: percorreu todo o trajeto do evento em dez dias de treinamento.
“Eu atribuo o meu sucesso na prova a duas coisas: o DNF de 2024, que foi no km 260 e me permitiu viver e aprender muito, e também o treino desse verão. Eu fiz o percurso da prova em 10 dias, treinando.”
Um abandono aos 260 quilômetros poderia ficar registrado simplesmente como um resultado
O resto desta matéria é para assinantes
A assinatura abre todas as edições completas, incluindo as mais recentes, e mantém a revista sendo feita.
