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Cro-Magnon renasce: dos Alpes ao Mediterrâneo, uma das provas históricas do ultra-trail está de volta

Edição especial de 2026 marcou o retorno do Grand Raid du Cro-Magnon dentro do One Hundred World Championship. Foram 100 quilômetros entre Limone Piemonte e Sanremo, resgatando uma história iniciada há 25 anos.

Valmir Lana · 29 de setembro de 2026 · 6 min de leitura

Existem provas que nascem em um momento em que o trail running já está consolidado, com grandes circuitos, transmissões ao vivo, atletas profissionais e milhares de corredores nas linhas de largada.

E existem aquelas que ajudaram a construir essa história.

O Grand Raid du Cro-Magnon, ou simplesmente Cro Trail, pertence ao segundo grupo.

No último dia 26 de setembro, uma das provas mais tradicionais do ultra-trail europeu voltou a ligar as montanhas ao Mediterrâneo. A edição de 2026 partiu de Limone Piemonte, atravessou as Alpi Marittime e terminou em Sanremo, na costa italiana.

Foram aproximadamente 100 quilômetros em um percurso que começa em ambiente genuinamente alpino, passa por regiões acima dos 2.200 metros de altitude e termina praticamente ao nível do mar.

A One Hundred havia apresentado previamente o novo percurso com cerca de 4.700 metros de ganho de elevação. No balanço divulgado depois da competição, foram apontados aproximadamente 6.000 metros de desnível positivo e mais de 7.000 metros de descida, mostrando a dimensão do desafio enfrentado pelos corredores. (One Hundred Trail⁠)

Uma edição zero

Mais do que simplesmente colocar novamente a Cro no calendário, a organização decidiu utilizar 2026 como uma espécie de laboratório para o futuro.

Foi a chamada “edição zero”.

Inicialmente, a One Hundred anunciou um grupo restrito de 15 atletas convidados. No fim, 17 corredores estiveram na largada, em um evento desenhado principalmente para testar o novo percurso, logística, segurança e operação antes do retorno em maior escala previsto para 2027. (One Hundred Trail⁠)

Mesmo com o caráter experimental, os resultados fizeram parte do sistema de pontos do One Hundred Ultra Endurance Trail World Championship, circuito mundial que atualmente reúne provas de 100 km, 100 milhas e 200 milhas. (One Hundred Trail⁠)

E a Cro ocupa uma posição bastante particular nesse calendário.

Se existem provas no campeonato marcadas pelo calor, selva, altitude extrema ou distâncias gigantescas, a Cro representa o ultra-trail alpino clássico: montanhas, passos elevados, terreno técnico e uma longa travessia terminando diante do mar.

Vitória italiana no retorno da Cro

E foram justamente dois atletas da região de Sanremo que chegaram primeiro ao Mediterrâneo.

No masculino, Maurizio Ferratusco venceu a edição de 2026 em 14h20.

Logo atrás chegaram Alessandro Ramò, na segunda colocação, e Giorgio Pulcini, completando o pódio masculino.

Entre as mulheres, a primeira atleta a alcançar Sanremo foi Valentina Minniti, também da cidade, terminando os 100 quilômetros em 22h55. Até o fechamento desta matéria, a classificação feminina completa não havia sido divulgada pelas fontes oficiais consultadas. (Sanremonews.it⁠)

Para Ferratusco, a vitória possui ainda um simbolismo especial. Ele já conhecia muito bem o Cro-Magnon e havia sido o primeiro italiano na edição de 2022. Agora, quatro anos depois, tornou-se o vencedor justamente da prova que marca o início de uma nova fase da competição.

Uma história que começou em 2001

Para compreender a importância do Cro-Magnon é preciso voltar ao começo do século.

A primeira edição aconteceu em 16 de junho de 2001, quando o trail running competitivo ainda estava longe da dimensão que possui hoje.

A prova chamava-se inicialmente Sur les Traces du Cro-Magnon e apresentava aproximadamente 105 quilômetros.

Naquela primeira edição, apenas 89 atletas chegaram ao fim, oito deles mulheres. Para os padrões da época, quando o universo das ultramaratonas em montanha ainda era bastante restrito, já era um evento expressivo. (Podisti.Net - Running Magazine⁠)

E o primeiro vencedor ajudaria a transformar a Cro em uma prova lendária.

Seu nome era Marco Olmo.

Aos 52 anos, o italiano venceu aquela edição inaugural e começou uma sequência praticamente inacreditável: Olmo seria campeão do Grand Raid du Cro-Magnon em 2001, 2002, 2003, 2004, 2005 e 2006.

Seis vitórias consecutivas.

Anos depois, Olmo entraria definitivamente para a história mundial do esporte também com suas vitórias no UTMB, em 2006 e 2007. Mas sua relação com o Cro-Magnon começou antes.

O próprio atleta já descreveu a Cro como uma das provas pelas quais tinha maior carinho, justamente por partir praticamente de sua região e atravessar antigos caminhos de pastores e contrabandistas antes de chegar ao Mediterrâneo. (Royal Nature⁠)

Das montanhas para o mar

Essa sempre foi a grande identidade da Cro.

Durante boa parte de sua história, a largada permaneceu em Limone Piemonte, enquanto a chegada acontecia do outro lado da fronteira, inicialmente em Cap d’Ail e posteriormente em Menton, na França.

Era uma verdadeira travessia dos Alpes para a Côte d’Azur.

O percurso foi mudando ao longo dos anos e a própria montanha obrigou algumas edições a serem alteradas ou canceladas. Neve, tempestades e condições extremas fazem parte da história da competição.

Outros grandes nomes também passaram pelo topo do pódio, como Dachhiri Dawa Sherpa, Antoine Guillon, Pablo Barnes e o italiano Michele Graglia, vencedor em 2015.

E esse último nome ajuda a conectar passado e presente.

Hoje, Michele Graglia faz parte da estrutura da One Hundred e está diretamente envolvido no renascimento do Grand Raid du Cro-Magnon. O atleta que um dia venceu a Cro agora participa da construção de seu futuro. (One Hundred Trail⁠)

O difícil retorno

Nos últimos anos, a prova passou por diferentes formatos e dificuldades.

Em 2022, por exemplo, uma versão de aproximadamente 90 quilômetros e 5.000 metros positivos terminou em Ventimiglia. Foi uma edição marcada pelo forte calor e por um duelo impressionante entre o marroquino Rachid El Morabity e o argentino Pablo Barnes. (Spirito Trail⁠)

Em 2025, a organização planejava novamente realizar o Grand Raid de 100 quilômetros entre Limone Piemonte e Sanremo, mas decisões administrativas impediram que a corrida atravessasse território francês. O percurso principal precisou ser cancelado, permanecendo apenas o Mini Cro. (Cro Trail⁠)

Foi mais um capítulo complicado na história de uma prova que sempre dependeu da conexão entre regiões, montanhas e fronteiras.

Por isso, o que aconteceu em setembro de 2026 tem um peso diferente.

Não foi simplesmente mais uma corrida.

Foi um recomeço.

O Cro-Magnon olha novamente para o futuro

A Cro completa agora 25 anos desde aquela primeira aventura realizada em 2001.

O esporte ao redor dela mudou completamente.

Hoje existem atletas profissionais, grandes marcas, transmissões internacionais, rankings globais e circuitos que percorrem diferentes continentes.

Mas a essência do Cro continua surpreendentemente parecida.

Sair das montanhas.

Atravessar os Alpes.

E correr até encontrar o mar.

A edição especial de 2026 serviu como primeiro grande teste dessa nova etapa. A expectativa é que o Grand Raid du Cro-Magnon retorne em 2027 com uma estrutura ampliada, recuperando espaço entre as grandes provas europeias e consolidando sua presença dentro do universo One Hundred.

Poucas provas conseguem carregar passado e futuro no mesmo percurso.

A Cro consegue.

Talvez porque, 25 anos depois, a história continue sendo incrivelmente simples:

começar nos Alpes e só parar quando encontrar o Mediterrâneo.


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