Revista Trail Running

Treino

Você não quebrou por falta de treino. Você quebrou por fome.

O intestino tem limite para absorver carboidrato, e esse limite pode ser treinado. Veja quanto a ciência indica comer por hora, o que a elite já testou e por que o estômago é uma das maiores causas de abandono em ultra.

Valmir Lana · 30 de setembro de 2026 · 5 min de leitura
Imagem ilustrativa gerada por IA

O km 50 chega e, de repente, as pernas ficam pesadas, o ritmo despenca e a cabeça começa a negociar o abandono. A conclusão costuma vir rápido: faltou treino. Na maioria das vezes, não faltou. Faltou comida. O corpo guarda carboidrato suficiente para poucas horas de esforço forte, e quem não repor o que gasta vai bater no muro, por mais quilômetros que tenha na perna. O detalhe que pouca gente conhece é que comer na prova também se treina.

O teto do intestino

O carboidrato que você engole só vira energia depois de atravessar a parede do intestino, e ela tem portas limitadas. A glicose usa um tipo de transportador que satura por volta de 1 grama por minuto, cerca de 60 gramas por hora. Comer mais do que isso usando só glicose não aumenta a energia disponível: o excesso fica parado no intestino, e é aí que começam o inchaço, a náusea e a corrida para o mato.

A saída foi descoberta nos laboratórios do fisiologista holandês Asker Jeukendrup, nos anos 2000. A frutose entra por outra porta. Misturando glicose e frutose, os atletas passaram a oxidar até 1,75 grama por minuto nos testes, bem acima do teto da glicose sozinha. Num teste de ciclismo, a mistura melhorou o desempenho em 8% a mais do que a glicose pura. É por isso que a maior parte dos géis modernos combina os dois açúcares, e que a recomendação para provas acima de duas horas e meia chega a 90 gramas por hora.

O que a elite já testou

Em 2020, o nutricionista espanhol Aitor Viribay levou a pergunta para a montanha. Vinte e seis corredores de elite disputaram uma maratona de montanha com cerca de 4.000 metros de desnível, divididos em três grupos: 60, 90 e 120 gramas de carboidrato por hora. Todos treinaram antes para tolerar a quantidade que iam consumir.

No dia seguinte, o grupo dos 120 gramas tinha marcadores de lesão muscular significativamente mais baixos, e percebeu a prova como menos desgastante. É um estudo pequeno, com atletas de elite e intestino treinado, e não autoriza ninguém a dobrar a dose no próximo domingo. Mas mostra o tamanho da mudança: o que era considerado impossível de digerir há quinze anos virou estratégia de pódio.

O estômago que abandona

Na outra ponta está o corredor comum. Em 2015, os pesquisadores Kristin Stuempfle e Martin Hoffman ouviram 272 atletas da Western States, a ultra de 161 km mais tradicional dos Estados Unidos. Nada menos que 96% tiveram algum sintoma gastrointestinal durante a prova. A náusea foi o mais comum e piorou justamente no trecho mais quente. Entre os que não terminaram, 35,6% apontaram o estômago como motivo do abandono.

O outro lado do problema é comer pouco. A posição oficial da Sociedade Internacional de Nutrição Esportiva sobre ultramaratonas, de 2019, reúne estudos em que atletas repuseram apenas entre 36% e 53% da energia gasta na prova. Muita gente come pouco porque o estômago não aguenta, e o estômago não aguenta porque nunca foi treinado.

Treinar o intestino

O intestino se adapta como um músculo. Em 2017, o pesquisador Ricardo Costa e sua equipe da Universidade Monash fizeram 25 corredores treinarem por duas semanas consumindo 30 gramas de carboidrato a cada 20 minutos durante corridas de duas horas, o equivalente a 90 gramas por hora. Os sintomas gastrointestinais caíram cerca de 60%, a absorção melhorou e a distância percorrida num teste de desempenho aumentou 5,2%. O grupo que não treinou o intestino piorou 2,1%.

Na prática, isso significa usar os treinos longos para ensaiar a prova: o mesmo gel, a mesma bebida, a mesma frequência e, se possível, o mesmo calor.

Um plano prático

As recomendações variam entre as entidades, e a quantidade ideal é individual. Como referência:

  • Treinos e provas de até 1 hora: água costuma bastar.
  • De 1 a 2 horas e meia: 30 a 60 gramas por hora.
  • Acima de 2 horas e meia: 60 a 90 gramas por hora, com mistura de glicose e frutose, para quem já treinou o intestino.
  • Acima de 90 gramas: só com adaptação progressiva e acompanhamento de nutricionista.

Para ter noção, um gel comum traz entre 20 e 30 gramas de carboidrato. Quem toma um gel a cada 40 minutos está abaixo de 45 gramas por hora. Três cuidados completam o plano:

  1. Suba aos poucos. Aumente 10 a 15 gramas por hora a cada uma ou duas semanas de treino longo.
  2. Coma cedo e com relógio. Comece nos primeiros 30 a 45 minutos e siga um alarme, não a fome.
  3. Respeite o calor. A tolerância do intestino cai nas horas mais quentes; bebidas com carboidrato e géis com água costumam descer melhor.

Contexto: a ultra é uma prova de comer

A posição da Sociedade Internacional de Nutrição Esportiva é mais conservadora para ultras: 30 a 50 gramas de carboidrato por hora, dentro de 150 a 400 calorias por hora, com treino progressivo do intestino. A diferença para os números da elite não é contradição: em provas de 20 ou 30 horas, com ritmo mais baixo, comida sólida e calor, o que importa é conseguir comer do começo ao fim sem que o estômago pare.

Nas provas brasileiras, com largadas de madrugada e trechos longos sob sol forte, a regra vale em dobro. O plano de alimentação precisa ser testado em treino, na mesma hora do dia e no mesmo calor da prova.

Conclusão

A quebra no km 50 raramente é um veredito sobre o treino. Quase sempre é uma conta de energia que não fechou, e ela começa a ser feita na primeira hora de prova. A boa notícia é a mesma das pernas: o intestino aprende. Quem ensaia a alimentação nos treinos longos chega ao fim da prova com energia para correr, e não só para sobreviver.

Leia também: Os melhores do mundo caminham na subida e Sua prova não acaba na última subida. Ela acaba na primeira descida.

Este texto tem caráter informativo. Para montar sua estratégia, procure um nutricionista esportivo.

Fontes

Imagens ilustrativas geradas por inteligência artificial.

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