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O super tênis não sobe a montanha
A placa de carbono que deixa o corredor 4% mais econômico no asfalto quase não faz diferença na subida. Veja o que a ciência mediu e o que realmente importa no tênis de trail: aderência, proteção, encaixe e peso.

A largada de uma ultra brasileira virou vitrine. Espuma alta, placa de carbono, tênis de mais de mil reais que venceram maratonas pelo mundo. A lógica parece simples: se funciona no asfalto, deve funcionar na trilha. A ciência diz que não é bem assim. Quanto mais a subida aperta, menos a tecnologia do super tênis entrega, e na montanha quem decide a prova costuma ser outra coisa: o cravo que segura na pedra molhada e o espaço para o pé que incha na hora seis.
O que a ciência mediu
Em 2026, um grupo da Universidade de Leeds, no Reino Unido, colocou doze corredores competitivos na esteira a 12 km/h com dois tênis: um super tênis de placa de carbono e um modelo de corrida comum. No plano, o super tênis economizou 4,2% de energia. Com a esteira inclinada, o ganho foi sumindo:
| Inclinação | Economia do super tênis |
|---|---|
| Plano | 4,2% |
| 3% | 2,4% |
| 6% | 1,1% |
| 9% | 0,5% |
Uma rampa de 9% é uma subida leve para padrões de montanha. A trilha usada no estudo dos bastões que publicamos tinha média de 19,5° de inclinação, algo perto de 35%. Ali, a vantagem medida no laboratório já teria praticamente desaparecido.
A trilha real conta a mesma história. Em 2025, Corbí-Santamaría e colegas levaram doze corredores de montanha treinados para um percurso de 5,19 km com subida, descida e trecho misto, testando seis super tênis contra um tênis comum. Não houve diferença fisiológica entre eles. E os corredores avaliaram os modelos de placa como menos flexíveis na frente do pé, principalmente nas subidas, onde o pé precisa dobrar para empurrar.

Quanto pesa o peso
No pé, cada grama conta mais do que nas costas, porque o tênis sobe e desce a cada passada. Um estudo clássico da Universidade do Colorado, de 2012, mediu o custo: cerca de 1% a mais de energia a cada 100 g por pé.
A conta ajuda a pensar, mas também põe as coisas em perspectiva. Trocar um tênis de 320 g por um de 270 g economiza perto de 0,5%. Esquecer um litro de água extra na mochila custa bem mais. Peso no pé importa, mas não é motivo para largar com um tênis que não segura nem protege.
O que importa na montanha
- Aderência: é o cravo e a borracha que decidem se você desce solto ou freando. Na pedra molhada e na lama, nenhuma espuma compensa um solado que escorrega.
- Proteção: a ponteira reforçada e a placa contra pedras salvam dedo e planta do pé em terreno técnico.
- Estabilidade: quanto mais alta a espuma, mais longe do chão fica o pé. Em trilha técnica, com pedra solta e raiz, isso cobra do tornozelo.
- Encaixe: o pé incha ao longo das horas e escorrega para a frente na descida. O tênis precisa segurar o calcanhar e deixar os dedos livres.
- Peso: importa, mas vem depois dos quatro itens acima.
Como escolher
- Cravo pelo terreno. Trilha seca e firme pede cravo baixo e borracha macia. Lama e terra solta pedem cravo mais alto e espaçado. Pedra lisa pede borracha aderente acima de tudo.
- Numeração com folga. Para provas longas, muitos corredores sobem meio número. Teste no fim do dia, quando o pé já está maior, e deixe cerca de um dedo de espaço na ponta.
- Teste a descida. Na loja ou no treino, desça uma rampa: se o dedo bate na frente, o tênis está curto ou o cadarço está frouxo.
- Drop sem susto. Mudanças grandes de drop exigem adaptação de panturrilha e tendão. Troque aos poucos, em treinos curtos.
- Tenha rodízio. Um modelo mais protegido para treino longo e técnico, outro mais leve para trilha corrida e prova curta.
Os erros mais comuns
- Comprar pelo asfalto: levar para a montanha o tênis que funciona na maratona.
- Tênis justo: perfeito na loja, apertado na hora seis e na primeira descida longa.
- Estrear na prova: bolha e unha preta aparecem depois de horas, não no provador.
- Um tênis para tudo: o mesmo cravo não serve para lama, pedra e estradão.
- Ignorar o desgaste: cravo gasto escorrega. Olhe a sola antes de olhar a quilometragem.
Contexto: a corrida armamentista chegou à trilha
Desde que os tênis de placa de carbono quebraram recordes no asfalto, as marcas passaram a levar a mesma fórmula para a montanha, com espuma de alto retorno e placas mais flexíveis. A tecnologia pode ajudar em provas corridas, de inclinação suave e terreno firme. Mas a ciência ainda é pequena e os estudos mostram ganho que encolhe na subida. Para a maioria das provas de montanha brasileiras, com subidas longas, pedra e lama, o investimento rende mais em aderência, proteção e encaixe do que em placa.
Conclusão
O super tênis foi feito para o asfalto, e lá ele é imbatível. Na montanha, o ganho que ele promete encolhe a cada grau de inclinação, e o que decide o dia é o pé firme na pedra, os dedos inteiros no fim da descida e um tênis que você esquece que está usando. Antes de pagar pela placa, pague pelo cravo.
Fontes: Askew et al. (2026), Scandinavian Journal of Medicine and Science in Sports. Corbí-Santamaría et al. (2025), Applied Sciences. Franz, Wierzbinski e Kram (2012), Medicine and Science in Sports and Exercise.
Imagens ilustrativas geradas por inteligência artificial.



